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2 especialistas em saúde dos EUA contam agora como enfrentaram o negacionismo de Trump sobre a pandemia


Sob pressão de que vírus era uma farsa, Anthony Fauci contradisse o ex-presidente americano e manteve o cargo de 4 décadas. Deborah Birx se calou e encerra a carreira. Foto de 22 de abril de 2020 mostra o então presidente dos EUA, Donald Trump, com os especialistas em saúde Anthony Fauci e Deborah Birx (à esquerda)
Jonathan Ernst/Reuters
Dois dos maiores especialistas em imunologia dos Estados Unidos revelam agora como enfrentaram os ímpetos negacionistas do ex-presidente Donald Trump na resposta à pandemia de Covid-19. Com credenciais acumuladas na convivência com sete presidentes americanos, Anthony Fauci desafiou-o publicamente, contradizendo suas declarações, e recebeu ameaças de morte de seguidores.
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Ex-coordenadora da força-tarefa contra o coronavírus, Deborah Birx viu o presidente apresentar gráficos e dados sobre a doença que ela desconhecia. No programa “Face The Nation”, da CBS, contou que muita gente na Casa Branca de Trump considerava uma farsa a pandemia que já resultou em 420 mil mortos.
Ambos cogitaram a demissão, mas persistiram no governo por razões distintas. Escanteado pelo ex-presidente, Fauci considerou que, se deixasse o posto, “o gambá do piquenique não estaria mais lá”. Birx aguentou calada aos desvarios do chefe, até quando ele sugeriu, num de seus briefings diários à imprensa, a injeção de desinfetante para combater o vírus.
Por ser uma voz pública dissonante, Fauci, aos 80 anos, mantém o cargo de diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas e atua como conselheiro científico de Joe Biden. Exprimiu, com alívio, o fim do desconforto e a sensação libertadora por “deixar a ciência falar”.
Seu relato ao jornal “The New York Times” sobre a difícil convivência com Trump é aterrador, mas não surpreende. A relação entre ele e o ex-presidente começou a se desgastar quando aumentaram também os casos na Costa Leste, mais especificamente em Nova York.
O médico percebeu rapidamente que o então presidente levava muito a sério opiniões que vinham de fora da área de saúde, sobre tratamentos não comprovados ou baseados em medicina alternativa, como cloroquina, plasma, luz ultravioleta ou alvejantes.
Fauci notava no chefe a ansiedade crescente, em ano eleitoral, para que a doença sumisse como passe de mágica. Enfrentou o dilema de ter de contradizê-lo em público, sob o risco de manchar uma biografia escrita em quatro décadas na Casa Branca. E pagou por isso: mulher e filhos receberam ameaças de morte e ele próprio foi destinatário de um pó branco ao abrir um pacote em seu escritório.
Birx, por sua vez, anunciou a aposentadoria e encerrou a carreira com o fim do governo Trump: “Você não pode entrar em algo que está tão polarizado e esperar que não seja marcado por aquela experiência”. Aos 80 anos, Fauci, no entanto, conseguiu demarcar a distância e ficou no governo, para o bem da saúde do país.
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