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Artistas fazem da arte uma forma de quebrar preconceitos

O tambor que soa diferente pra dar rumo ao ritmo, o corpo que se movimenta além da coreografia e a voz que entoa cânticos e rezas. O que essas formas de arte têm em comum? A influência das religiões de matrizes africanas. São muitos os nomes que bebem dessa fonte na Bahia e três deles lançam projetos essa semana: Gabi Guedes, Vera Passos e Irma Ferreira. 
 
Valorizar a ancestralidade e diminuir o preconceito através da arte são só alguns dos objetivos do trabalho de cada um. “O público precisa conhecer sobre as matrizes, a ancestralidade, para que possa também aprender a respeitar a cultura, as diferenças”, defende o percussionista Gabi Guedes, 58 anos, integrante da Orkestra Rumpilezz e idealizador do grupo Pradarrum. 
 
Nascido no Alto do Gantois, no terreiro de Mãe Menininha, Gabi lança no dia 1º de fevereiro a WebTV Minuto Percussivo, onde apresenta a arte dos atabaques e a sua relação rítmica com as religiões de matrizes africanas. Ainda em fevereiro, no dia 12, Gabi realiza um workshop de percussão ancestral e um pocket-show no evento online Batucaê – Encontro de Percussão Baiana. 
 
Falar sobre a chegada dos atabaques, onde eles vivem e quem são as pessoas que seguram esse legado é o que o percussionista vai apresentar no Minuto Percussivo. Ao longo dos dez episódios lançados sempre às segundas-feiras no canal do artista (youtube.com/ GabiGuedesMusic), o público terá contato com a forma de afinação e as técnicas do instrumento. 
 
Também vai aprender que não se diz “vou ali bater um tambor”. “Não, essas coisas não se batem, se tocam. A gente tem que aprender essa suavidade do corpo, essa dinâmica de como golpear e encontrar essa sonoridade, sem tensão. Vou falar sobre minha forma de tocar, sobre como encontro meu corpo para expressar essa sonoridade que vem de dentro dos terreiros de candomblé”, explica Gabi. 
 
Movimento 
O som dos atabaques e a movimentação da dança caminham juntos, ressalta o percussionista sobre o que observa dentro dos terreiros. “Essa harmonia é o que a humanidade precisa”, defende o artista que iniciou seus estudos aos 10 anos com os alabês (responsáveis pela percussão dos terreiros). “Precisamos viver que nem as teclas de piano: o preto e o branco dialogando em boa harmonia”, acrescenta. 
 
O contato com o terreiro de candomblé também influenciou a dançarina, coreógrafa e professora Vera Passos, 52 anos, afinal foi acompanhando seus pais ainda pequena que viu despertar seu interesse pela dança. Vera não tinha nem dez anos quando entrou nas festas de candomblé vestida com a roupinha de Xangô, orixá da justiça. 

Vera Passos se encantou pela dança ainda pequena, quando acompanhava os pais no terreiro de candomblé (Foto: Chris Graamans/Divulgação)

“Essas tradições são passadas pela família, de geração em geração. Eu acompanhava eles e já tinha essa coisa de querer dançar, de querer entender que corpo era esse. Eu via a festa inteira, dançava junto. Foi aí que tomei mais gosto pela dança”, lembra Vera, que estudou com professores como Mestre King, Lia Robatto, Zebrinha e chegou a ser solista do Balé Folclórico da Bahia. 
 
“No terreiro, tinha um repertório de movimentos que me encantava. Foi aí que comecei a me expressar através do corpo, de um lugar de diálogo que tratava da minha cultura. A pele arrepiava, vinha uma quentura que o corpo pegava. Eu não queria ir para as festas com os amigos, eu queria ir para a cerimônia religiosa”, sorri a dançarina. 
 
Diretora artística associada da Cia. de Dança Viver Brasil, em Los Angeles, Vera vai ministrar um curso de formação em dança com a Técnica Silvestre, metodologia que se baseia nas danças sacralizadas dos orixás. As inscrições estão abertas até o dia 15 de fevereiro e as aulas terão música ao vivo com Nei Sacramento. 
 
“Esse lugar raiz, de base, é o lugar de crença. Lugar onde você entende tudo o que está te segurando pra você se fazer existir. Nesse lugar, você reconhece de onde você veio. É um lugar de reconhecimento da sua voz, todos esses reis e rainhas que lutaram por você, sofreram por você”, explica Vera. “É necessário encontrar seus próprios caminhos para entender sua história, em que parte da cultura você se conecta”, defende. 
 
Intuitivo 
Levar essa cultura para o maior número possível de pessoas foi o objetivo da cantora soprano Irma Ferreira, 29 anos, ao idealizar o EP Cantos e Rezas. Coleção de cantos tradicionais do candomblé – os orikis e aduras – o trabalho começou a ser gravado essa semana e será lançado no início de abril. Mas quem acompanhou Irma na Ópera Lídia de Oxum e na Ópera dos Terreiros, pode esperar algo mais minimalista.

A cantora soprano Irma Ferreira lança um EP e um CD sobre cânticos para os orixás (Foto: Divulgação)

 
“Em tempos de The Voice Brasil, o que se entende por cantar bem é: quanto mais agudo você canta, melhor você é (risos). Minha formação é de cantora lírica e eu prezei pela excelência vocal de afinação e interpretação, mas sem firula. Não queria sujar a simplicidade que é o canto de candomblé”, justifica Irma, que passeia pelo universo de cinco orixás. Em maio, lançará o CD completo com outros não contemplados. 
 
“O CD não é religioso”, garante a artista que não canta na ordem em que orixás se apresentam na festa do candomblé – o xirê. Na verdade, foi tudo muito intuitivo e começou com um vídeo despretensioso no Instagram. Irma tinha se mudado e resolveu cantar para Oxalá. “Nunca tinha exposto minha religiosidade até então. No outro dia, tinha 5 mil visualizações”, lembra, surpresa. 
 
Ainda sem entender o que estava acontecendo, a cantora passou a gravar um vídeo por dia e o projeto ganhou força. Teve até pai de santo dizendo que usou o vídeo para ensinar seus filhos. “Não esperava. Não tinha nenhuma pretensão. Foi um filho da quarentena”, comemora, orgulhosa. A partir do pontapé, Irma resolveu tirar a imagem estereotipada do candomblé e dialogar com outros públicos. 
 
“Quando a gente pensa em material sobre a religião de matriz africana, a gente encontra Pierre Verger, Carybé e ‘N’ artistas que falam sobre isso. Mas quantitativamente ainda é escasso. Tudo o que se passa no candomblé é muito oral, passa de mãe para filho. Que esse registro sirva para perpetuar essa religiosidade. Por isso o cuidado de não ferir, nem modificar demais”, explica Irma. 
 
Gabi Guedes reforça que é importante preservar essas memórias, “para poder falar para nossos netos, bisnetos, de onde viemos, quem somos”. “A gente precisa manter nossa identidade”, justifica o percussionista. “Tem que ir nos terreiros, nos quilombos, conversar e respeitar os mais velhos. Foram eles que seguraram essa peteca até hoje. Se não fosse isso, a música brasileira com certeza seria diferente. O Brasil é feito de misturas e a diáspora contribuiu com isso”, defende. 
 
Serviço 
 
Gabi Guedes 
O quê: WebTV Minuto Percussivo 
Estreia: 01/02, às 20h, no YouTube (youtube.com/GabiGuedesMusic) 
Live de lançamento: 01/02, às 19h30 no Instagram (@GabiGuedesMusic) 
Episódios novos: às segundas-feiras 
 
O quê: Batucaê – Encontro de Percussão Baiana 
12/02, às 20h – Workshop A Percussão Ancestral 
12/02, às 21h – Pocket-show “Pradarrum – saudação às matriarcas” com Gabi Guedes 
 
Vera Passos 
O quê: Curso de Formação em Dança – Técnica Silvestre 
Inscrições: até 15/02 em
Gratuito e online 
Carga horária: 18h 
Aulas: De 23/02 a 26/03 (às terças, quintas e sextas) 
 
Irma Ferreira 
O quê: EP Cantos e Rezas, com produção de Fred Dantas 
Lançamento: início de abril 
O quê: CD Encantos de Orixás 
Lançamento: início de maio 
 
Maracatu Ventos de Ouro 
O quê: Live Café com xs Mestrxs 
Quando: Sábado, 30 de janeiro, às 10h 
Onde: YouTube (www.youtube.com/maracatuventosdeouro)