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Com setor automobilístico despencando, Bahia tem maior queda de produção industrial em cinco anos

A indústria baiana terminou 2020 com números preocupantes em relação à produção. Ao longo do ano, houve uma queda no fluxo produtivo de 5,3% em relação à 2019, que havia acabado também com um decréscimo de 2,9%, registrando assim o segundo consecutivo com resultado negativo. Como principais causas da estatística, estão a pandemia do novo coronavírus e a consequente pausa de produção em setores entre março e setembro de 2020. Entre eles, o setor automotivo, terceiro maior do estado, que apresentou uma queda recorde de 41,6% no ano, após ver meses em que a sua produção chegou a cair em 90%.

A conta só não ficou pior porque outros setores de produção industrial como o de derivados de petróleo, celulose e papel e outros produtos químicos que apresentaram, respectivamente, um crescimento de 13,7%, 7,5% e 4,2%, evitando um recuo ainda mais robusto da produção. Os números positivos foram fundamentais para evitar que a metalurgia e o setor automotivo, que são uns dos ramos com mais poder de influência no quantitativo da produção, puxassem essa estatística ainda mais para baixo. 

Setores automotivo e metalúrgico puxaram produção para baixo (Foto: Reprodução/IBGE)

Vilão do recuo 

Entre os setores de produção industrial em território baiano, o automobilístico é o terceiro – atrás apenas dos derivados de petróleo e do setor de outros químicos – e, por isso, é fundamental para o balanço final de fluxo da indústria como um todo. Quando ele vê a produção ruir quase pela metade, é impossível ter, no fim do ano, uma produção em crescimento. É o que explica Carla Nascimento, economista da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI). “O setor de veículos foi o que mais sofreu com a crise sanitária oriunda da pandemia do coronavírus. A indústria parou nos primeiros meses da pandemia e o setor de vendas caiu também, o que foi mais um fator que freou a produção. E esse é um setor dos mais importantes da nossa produção, um dos mais impactantes. Com ele apresentando uma queda nesse nível, fica difícil chegar a um resultado que não fosse esse recuo da produção em geral”, afirma. 

O economista e especialista em mercado automotivo Luiz Pimenta concorda com a declaração de Carla e acrescenta que, após o período parado, o setor enfrentou dificuldades logísticas no retorno. “A pandemia é a principal causadora disso. Praticamente, a atividade voltou ao normal a partir de setembro. No mês de abril, a produção chegou a cair 90% e esse retorno integral levou um tempo. E, mesmo quando voltou, a indústria precisou lidar com o desabastecimento de produtos importantes como aço para o processo produtivo. Nesse cenário, acho até que a queda foi menor do que se imaginava. Achei que essa regressão fosse chegar em, pelo menos, 50%”, explica.

A metalurgia, que registrou regressão de 30,4%, foi outra atividade importante da indústria que contribuiu para a queda da produção industrial na Bahia. O setor, segundo Pimenta, foi um dos que foram influenciados indiretamente pela queda da fabricação de carros. “O mercado automotivo é tão importante que, quando se retrai, ele prejudica outros também, como o setor da borracha, por exemplo”, indica. A fabricação de borracha e de material plástico apresentou queda de 10,1%.

Queda contínua

O mercado automotivo teve papel fundamental para a maior queda da produção industrial nos últimos cinco anos, mas não é o único responsável pela queda. Sem tal contribuição em anos anteriores, a indústria baiana já vinha em queda. A trajetória negativa do setor se iniciou em 2014 (-2,6%) e, desde então, a produção industrial da Bahia só teve resultado positivo em 2018 (0,8%). Isso é o que informa Mariana Viveiros, supervisora de disseminação de informações do IBGE na Bahia. “Estamos, desde 2014, vendo números que indicam retração da indústria mesmo sem a pandemia e os problemas com o ramo automotivo. Infelizmente, ano a ano, temos registrado essa queda que se iniciou com uma crise que acometeu todo o Brasil entre 2013 e 2014. Em 2020, a situação da fabricação de carros potencializou um dado que já era negativo”, diz.

Com a saída da Ford, única montadora que tinha atividades em território baiano, Carla entende que a indústria continuará sentindo o efeito negativo de uma queda ainda maior dos números de fabricação, mesmo com os dois maiores setores – derivados de petróleo e outros químicos – apresentando números positivos que, para ela, servirão para amenizar o impacto, mas não para anulá-lo. “A Ford é a responsável, querendo ou não, pela produção de todo um setor. Sem ela, o setor, que é relevante, vai embora, deixa de existir. Apesar dos dois maiores apresentarem crescimento, não há nada que indique que isso será suficiente para equilibrar uma queda ainda maior no setor automobilístico”, crê.

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro