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Como é a vida no Gabão, país que era colado na Bahia há 200 milhões de anos

A novela sobre a construção da ponte Salvador-Itaparica já dura séculos, mas pouca gente sabe que há milhões de anos, literalmente, a ilha sequer existia e talvez fosse mais vantagem construir uma ponte direto para a África. Na verdade, talvez nem isso, porque praticamente não havia divisão entre a Bahia e o Gabão, no tempo em que o Oceano Atlântico ainda era um projeto longe de ficar pronto tal qual a ligação direta com a ilha.

Sim, há meio bilhão de anos, por exemplo, Salvador sequer tinha vista para o mar, pois ele ainda nem estava lá, ou talvez se assemelhasse mais a um rio. Do outro lado (ou do mesmo, né?), tínhamos o atual Gabão, que só começou a se distanciar da gente entre 225 e 200 milhões de anos atrás, início da deriva continental, quando as massas terrestres começaram a se separar de forma mais acentuada. 

Simulação da posição dos atuais países durante a Pangeia (Foto: Reprodução)

Foi esse processo que ‘desfez’ a Pangeia, o supercontinente que mantinha todo mundo junto e misturado, até chegar às atuais coordenadas, com a Bahia se distanciando alguns centímetros por ano da África.

Esse aspecto geológico é interessantíssimo, e vou tratar dele de forma mais aprofundada em breve, nesta coluna. Só um aperitivo: um dos trabalhos mais importantes sobre a união Bahi’África foi desenvolvido pela geóloga Simone Cruz, professora do Departamento de Geologia da UFBA, e mostra que existe uma ponte cratônica entre a Bahia e a África que foi quebrada.

Havia uma ‘ligação subterrânea’ entre Bahia e Gabão que, num processo geológico raro, se rompeu. Os dois territórios ocuparam mesmo espaço geográfico por pelo menos 2 bilhões de anos (Imagem: Reprodução/Ufba) 

Trata-se de um processo raríssimo porque os crátons são um tipo de estrutura geológica caracterizada, em geral, pela sua estabilidade e composição antiga, que se constitui durante a era Pré-Cambriana (período que se dá desde a formação da Terra, há 4,6 bilhões de anos, até 541 milhões de anos atrás). A estimativa é que os crátons começaram a se formar há 2 bilhões de aninhos, quando pré-Bahia, pré-Gabão e boa parte do atual Congo (Brazavile) tinham a mesma constituição subterrânea  – nossas conexões, portanto, vão muito mais fundo que as raízes.

Distância atual entre Salvador e Porto Gentil, no Gabão, é de mais de 5,3 mil quilômetros (Imagem: Google Maps)

Conexão
Bom, como dito, isso fica para uma próxima, porque o foco hoje é descobrir se há semelhanças e possíveis conexões entre os antigos territórios geminados de Bahia e Gabão, com algum espaço também para o Congo francês, que era contíguo ao atual extremo-sul baiano.

O foco no Gabão, no caso, é pelo fato de Salvador ter sido o principal porto(a) de entrada de pessoas escravizadas que vieram daquela região – a atual República Gabonesa fica ao sul da Mina e ao norte de Angola – durante mais de dois séculos.

Quase todos os africanos escravizados que vieram para Salvador vieram das regiões mais próximas ao Gabão (Imagem: Reprodução)

Ao que tudo indica, Salvador era praticamente ‘amarrada’ à atual cidade de Porto Gentil, centro industrial do país que é um dos mais emergentes do continente.

Para essa missão de verificação, contei com o apoio premium da engenheira Jaqueline Costa, 45 anos, que conhece muito bem a Bahia e, especialmente, Gabão e Congo, onde morou por alguns anos, a trabalho. Natural de Petrópolis, no interior do Rio, ela ajudou a traçar alguns paralelos entre as culturas baiana, gabonesa e congolesa.

“Por conta das rotas do tráfico (de africanos escravizados para o Brasil), a cultura foi levada junto, e que bom que ela sobreviveu! (…) Quanto ao Congo e o Gabão, eles estiveram juntos no passado, aquela região ali inclusive era uma parte da Angola também. Era o Império do Congo, que depois se dividiu”, cita ela, destacando que, por lá, houve uma divisão de influência entre colonizadores: Angola ficou sob domínio de Portugal, Gabão da França, e Congo da Bélgica. 

“As culturas congolesa e gabosesa são muito próximas. E a história deles corre em paralelo. Para se ter uma ideia, são apenas dois dias entre a Independência do Congo e a do Gabão”, destaca, citando a libertação do jugo europeu ocorrida em agosto de 1960. Desde então, o Gabão vive sem guerras e possui, atualmente, uma das maiores rendas per capita do continente africano: US$ 3,3 mil. Em Salvador, que tem meio milhão de habitantes a mais que todo o Gabão, a renda per capita é de R$ 1.053 (menos de US$ 200).

Coletividade
Se na renda geral perdemos feio, vamos em busca de aspectos que dão “empate”. Segundo Jaqueline Costa, entre eles estão as noções de coletividade e a hospitalidade. “É um ponto muito importante que eu não vejo apenas na Bahia, mas no Nordeste. Eles são muito voltados para a família, buscam estar bem com a comunidade, então esse núcleo familiar se expande. No Brasil, eu acho o povo de São Paulo, Rio também, mais individualista, um pouco mais fechado a um núcleo familiar pequeno”, ilustra a engenheira, filha de sergipana.

A engenheira Jaqueline Costa, que conhece bem a Bahia e viveu anos no Gabão e Congo, a trabalho (Foto: Divulgação)  

Sobre a receptividade, também estamos em pé de igualdade. “Me senti mais acolhida no Gabão do que no Congo. Mas, no geral, vi os dois povos como muito alegres. E nesse ponto eu traço um paralelo maior entre Gabão e Bahia, pela questão do cuidado que eles têm com os visitantes. A questão de fazer com que você se sinta bem-vindo, trazer você pra casa, abrir as portas, e tudo com muita alegria. Acho que é o grande paralelo entre baianos e gaboneses”, reforça ela.

Cultura
Na parte musical, a alegria também é destaque. O axé gabonês seria o afro zouk, ritmo local, com influência caribenha, que é igualmente dançante, com coreografias e rebolados que cairiam bem ao pagodão. “Era o que eu curtia mais. Eles têm outros tipos de ritmo, claro, não estão fechados em um apenas, mas era o que eu gostava mais pela batida e pela dança”, cita nossa consultora, indicando a escuta de artistas como Nadege Mbadou, Zyon Stylei (assista abaixo), Oliver N’GOMA, e sua preferida, Patience Dabany.

Na culinária, Jaque não pôde ajudar muito, porque é vegetariana, mas apontou aquele que seria o acarajé do Gabão. Chama-se saka saka, e consiste num cozido com  peixe e folhas de mandioca (que lá se chama cassava). O aspecto visual é semelhante a um caldo de sururu mais consistente e costuma ser servido com arroz, muitas vezes também com camarão no meio.

Saka saka, uma das comidas típicas do Gabão (Foto: Reprodução)

Cores
O visual ambiental já foge um pouco da nossa realidade: com o deslocamento da terra, o Gabão acabou subindo um pouco e ‘adotou’ o clima equatorial, o que faz com que o meio ambiente seja muito semelhante à Amazônia. “Você tem uma janela muito pequena de diferença de temperatura entre a mínima e a máxima, e chove todos os dias. A vegetação é bem similar à da floresta amazônica mesmo, um clima muito úmido”, detalha Jaqueline.

 

Mas além de florestas densas, há também o mar e os rios. “O contato com a praia é muito importante para eles, não apenas com as praias, também com os rios da região, então, a pesca é uma atividade econômica muito importante”, cita, religando elos comuns que também estão nas roupas coloridas,  e nos sorrisos que as pessoas de lá, como por aqui, também costumam usar no dia a dia.