Geral

Contra o colôniavírus, só quem pode é o matriarcado

Maira, Ana Júlia, Ângela, Cleuza (sentada), Ana, Adriana e Alexandra

Quando a pandemia apertou, elas aquilombaram: oito mulheres – as Dumas – lá no Prado. Cada uma de um jeito, criando e executando projetos que vão de livro de receitas a máscaras, performances e gestos de (auto) cuidado. O conceito que tá lá em cima é de Ana, uma das Dumas. Ela é, entre muitas coisas, criadora do Campo da Doida, uma das casas do “quilombo”, de onde espera a vacina enquanto planeja um futuro negro, cabôco e mulher, totalmente insubordinado. Exatamente como já é o matriarcado delas, o quilombolha que tem teoria e funciona assim, na prática:

Ana (criadora em multilinguagens)

“Minha casa em Prado é vizinha a da minha mãe e da minha irmã e criamos uma grande quilombolha – um misto de quilombo (e seu legado comunitário) e bolha (e seu legado isolacionista, tão necessário ao combate à pandemia). No Prado, cidade onde as caravelas portuguesas aportaram antes da parada em Porto Seguro, foi inevitável me dar conta do quanto a educação colonial me configura. À luz da pandemia do coronavírus, comecei a ver a colonização como um vírus poderoso, com alto grau de contágio e contaminação. É preciso disposição e coragem para reconhecer, localizar, e desativar o colôniavírus que há em nós. Esse processo de reconfiguração gerou o projeto Encaboca, um vídeo contemplado pelo Edital Calendário das Artes 2020, da Fundação Cultural do Estado da Bahia. Estar aquilombada com mulheres me faz entender, na pele, a importância do matriarcado como um sistema de gestão.”

Cleuza Gouvêa Dumas (matriarca, professora aposentada e mãe de Adelaide, Ana, Ângela, Alberto, Adriana e Alexandra)

“Durante esses meses sem sair de casa, venho me ocupando com o preparo do almoço, a tarde fazendo biscoitos de nata, fubá, polvilho e outras guloseimas cujas receitas estão no meu caderno de receitas “Delícias de Cleuza”, um PDF que produzimos durante a pandemia e compartilhamos com a família e amigos. Além de cozinhar, cuidar das plantas, fazer yôga, cultivar rosas, fazer polpas de acerola e manga colhidas do nosso quintal e jogar baralho, produzi um vídeo para homenagear minha mãe que faria 100 anos em 2020, e depois eu distribuí com os irmãos e familiares. Foi emocionante fazer esse trabalho.”

Ângela (professora de história aposentada)

“No início desse período de isolamento, apesar da situação de pandemia e do medo, foi um momento de novidade, minha filha, nora, as irmãs, todas juntas. Mas as coisas foram se arrumando, cada uma procurando algo a se dedicar. Passei a alternar momentos de trabalho intenso e momentos de pânico, a noite era e ainda é o pior momento. Deixei de acompanhar as notícias, não estava conseguindo dormir, comecei a perder peso. Senti que estava precisando exercitar o autocontrole. Passei a me dedicar mais tempo ao que amo fazer: cuidar das plantas e a cozinhar para as pessoas que amo.”

Adriana (Professora de História)

“Decidimos que passaríamos pela pandemia juntas e concentradas, na casa em que fomos criadas. Assumi algumas funções, como receber e higienizar tudo o que entrava na residência, como mantimentos, remédios, correspondências, encomendas. Quando necessário, eu saio para comprar e resolver pessoalmente algumas questões. No mês de dezembro me infectei com o coronavírus. Foram dias nebulosos no isolamento domiciliar. Mesmo sabendo que eu me expunha mais por conta das atividades que assumi, senti que falhei em algum momento. Mais uma vez a rede das Dumas me amparou, pois foi isso o que fizemos e fazemos ainda hoje: cuidamos uma das outras. Em uma ou outra situação, uma de nós se sobressai, assume a dianteira. Mas, no geral, a horizontalidade predomina no que estamos a viver por aqui.”

Alexandra (Professora de Teatro)

“Uma rede de confiança, segurança e de afetos que até contrasta com o mundo externo ao nosso espaço de convivência. 
Por estar praticamente 24 horas dentro de casa, exatamente na casa em que fui  criada e vivi toda a minha infância e adolescência, futuquei alguns espaços e encontrei alguns objetos que formaram a minha história.  Meu vestido de formatura do ensino médio, da minha formação em magistério, por exemplo, acionou uma memória que me foi lembrada pela minha mãe a respeito do meu cabelo crespo e fiz um pequeno vídeo. Dentre outros objetos, encontrei um caderno de décadas passadas com registro de músicas infantis feito pela minha mãe e algumas músicas copiadas por mim. Esse caderno fez parte de uma conferência e de uma aula dadas por mim, pois ali constava uma canção infantil que exaltava o “descobrimento” do Brasil. Serviu para uma análise crítica a propósito de uma educação colonizadora.”

Maira (Filha de Ângela, irmã de Ana Júlia, companheira de Natália Nascimento e estudante de direito)

“Fomos levadas a um mergulho interno enquanto o medo e as dúvidas pairam pelo ar. Diante de tanto caos encontramos nosso oásis no colo materno, no colo umas das outras. Descobrir o quanto estamos ligadas e o quanto temos a aprender, com a natureza, com a vivência do outro, com a sabedoria ancestral fez desse confinamento um verdadeiro marco. Eu me dediquei a ouvir.” 

Natália Nascimento (Produtora de eventos e companheira de Maira, não aparece na foto pois esta foi feita depois da data em que Natália precisou sair do Prado)

“Viver em uma comunidade com 8 mulheres p mim foi um aprendizado incrível. Aprendi com as experiências de vida de cada uma delas, aprendi a levar uma vida mais saudável a me alimentar melhor, graças a quantidade de árvores frutíferas da região e a qualidade de vida levada por cada uma das 8 mulheres. Apesar de ter voltado a Salvador por motivos de trabalho, ainda carrego comigo os costumes da alimentação saudável, de fazer exercícios físicos diariamente e acima de tudo, aprendi a dar ainda mais valor ao matriarcado!”

Ana Júlia Dumas (Filha de Ângela, irmã de Maira, adolescente e estudante)

“Nos primeiros meses até gostei do isolamento, pois a minha irmã e minha cunhada e minhas tias vieram de Salvador e eu não precisava ir para a escola, fiquei assistindo aula online no meu quarto.Com a volta da minha irmã e minha cunhada para Salvador, e com as férias escolares, comecei a sentir tédio. Minha mãe então resolveu me ensinar a técnica de pintura de camisetas Tay day, fiz algumas camisetas. Continuo fazendo o curso de maquiagem, as camisetas, de vez em quando vou para cozinha fazer lanches para a família, pela manhã faço o treino (exercícios físicos) e vou a uma praia afastada com minhas tias.”