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Creme de tutano esconde tradição ancestral

Quando escuta alguém reclamando “meu cabelo está fraco”, a influenciadora digital e cientista social Rose Hapuque, 28 anos, sempre pergunta: “Você já usou tutano?”. No formato de creme ou óleo, o tutano tem a capacidade de recuperar os cabelos danificados, principalmente os crespos e aqueles prejudicados com a química. Com benefícios por vezes desconhecidos, o produto também esconde uma tradição ancestral.

Foi com a avó que Rose aprendeu a fazer o óleo de tutano e a receita da família foi passada pela tataravó, que era indígena. “Tudo é ancestralidade, né? Minha avó é negra e tinha uma avó índia. Tudo isso que eu faço, minha mãe faz. A gente tem muito a questão de herança de cuidado com o corpo, com o cabelo”, reforça Rose, que está há 9 anos sem relaxar o cabelo.

A influenciadora conta que só conseguiu fazer o processo de transição capilar com a receita da família, afinal os cremes disponíveis no mercado não atendiam à sua demanda. “Antigamente, as pessoas com cabelo crespo alisavam, mas hoje a gente quebra o padrão com o cabelo natural. Comecei a transição cuidando com o que minha avó ensinava”, lembra.

A cantora Marcia Short, 52, também passou um tempo refém do mega hair. Apesar de defender quem se sente à vontade com ele, a artista percebeu que estava se escondendo. “Embora seja uma ferramenta de ajuda, o mega hair alimenta um padrão de beleza que a sociedade impõe”, pondera a cantora que está lançando sua própria marca de creme de tutano, com receita aprendida com a avó.

A cantora Marcia Short está lançando a marca Creme de Tutano da Vovó Maura
(Foto: Madson Silva/Canto do Galo Filmes/Divulgação)

“Muitas mulheres não ficam nem um dia sem o mega porque querem atender a um padrão full time. Eu era uma dessas mulheres. Só me entendia bonita com mega hair. Nunca tirava e quando tirava estava com o cabelo estragado. Tratar do meu cabelo me mostrou outro caminho. É libertador”, garante Marcia, que está há quase um ano sem trança. “Me entender como mulher preta passa pelo cabelo. Estou feliz”, comemora. 

Boi
Produzido a partir do osso do boi, o creme de tutano tem uma base pura que é retirada da medula óssea do animal. Após extração, a substância passa por um processo de limpeza e higienização, aquecimento em banho-maria e em seguida é coado. Ao esfriar, o produto é batido e depois de aerado, chegando à etapa final do processo.

“Tudo é feito sem causar danos à natureza. O que a gente usa do boi é o que seria descartado. Aquela parte do osso, aquilo que iria para o lixo”, explica Marcia. A cantora seleciona a matéria-prima com produtores parceiros, acompanha o processo de limpeza e mete a mão na massa para fazer a finalização.

Por isso, o Creme de Tutano da Vovó Maura precisa ser feito por encomenda (@tutanoartesanal), com antecedência. “É um processo todo artesanal que faço questão de acompanhar”, reforça a artista que aprendeu a receita com a avó paterna, Dona Maura Silva Santana, e viu a oportunidade de um novo negócio. “A gente tem que estar sempre se reinventando”, justifica.

Libertação
Adepta ao processo artesanal, a terapeuta capilar, atriz e artesã Alê Estrela, 48, usa o creme de tutano nos cosméticos que manipula no salão que mantém no Garcia. “Aqui no meu espaço não trabalho com química. Só com a libertação de usar seus naturais como você quer”, diz, sobre o Alê Estrela Cabelo e Arte. Sua relação com o tutano é antiga, desde a época em que sua bisavó fazia em Santo Amaro.

“Agreguei o tutano porque queria uma gordura. E falando do nosso fio crespo, naturalmente ressecado, existem necessidades”, explica Alê que, depois da morte da bisa, começou a comprar o tutano “com as senhorinhas que fazem lá em Santo Amaro”. Além do tutano, outros produtos de origem vegetal cumprem com esse papel, como o óleo de coco e o de amêndoa, explica.

A influenciadora digital e cientista social Rose Hapuque faz seu próprio creme de tutano, com receita da avó
 (Foto: Divulgação)

Os benefícios vão desde a assepsia até a umectação. A base gordurosa do tutano vai untar a superfície do cabelo com a função de hidratar e formar um manto lipídico, explica. Quem sofre com seborreia, por exemplo, passa por esse processo para depois enfrentar uma ação de limpeza. “Se vai no pente direto, ou shampoo, irrita e pode até ferir o couro cabeludo”, alerta a terapeuta capilar.

Além disso, o tutano representa ancestralidade, libertação e pertencimento, em sua opinião. “No mercado não existiam produtos pensados para nossos cabelos. O que nossas bisas faziam? Criavam os próprios”, afirma. Assim, o autocuidado é uma forma de revisitar sua própria história, acredita Alê, “e todas as proibições e negativas direcionadas às pessoas já sofreram por usar o cabelo crespo”.

“É um cabelo sempre escondido dentro de um padrão que a sociedade no obriga. Sendo uma mulher negra retinta, numa sociedade que diz que a mulher tem que ter cabelo grande e liso, o autocuidado lhe dá armas. É libertador”, defende. “A gente precisa fazer o caminho de volta para nos conhecermos e ressignificar tudo. Essa consciência nos conduz à libertação, para sair desse regime de escravidão”, conclui.