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Cunhada de morto no Imbuí relembra crime: ‘Não consigo tirar cena da cabeça’

A cunhada de Lucas Souza de Araújo, 29 anos, o barbeiro morto em um quiosque no Imbuí, disse que a família está mais tranquila com a prisão dos dois acusados pelo crime, mas não tanto, considerando que o mandado é temporário, ou seja, determina apenas 30 dias de detenção. “A Justiça está se encaminhando”, acredita Any. Em conversa com o CORREIO, ela relembrou o crime. “Estou muito em choque. Não consigo tirar essa cena da minha cabeça. Ele (o acusado) não é maluco, não estava em ameaça. A gente estava indo embora, não tinha nenhum risco”, diz.

Ela lembra que eles sempre iam para o Imbuí se divertir. “O primo dele ( de Lucas) trabalhava naquela barraca, como garçom. Era um ambiente familiar, íamos até para almoçar. Mas nesse dia ele tinha ligado para meu esposo e dissemos que íamos lá almoçar”, diz. “Quando a gente chegou lá, ficamos em outra barraca. E ele disse que queria mudar de barraca, para ir até outra, onde o primo trabalhava. Chegamos lá 16 horas, depois de 30 minutos eles chegaram. Ficamos conversando, se divertindo, estava tendo música ao vivo”, conta.

Any diz que por volta das 20h30 os acusados chegaram, mas que o grupo não prestou atenção neles. Até a hora que ela resolveu ir ao banheiro e foi acompanhada pela cunhada, Marisa. “Foi neste momento que vimos eles, que estavam na frente do banheiro em uma mesa. Eles chamaram a gente, dando psiu. Não demos atenção e continuamos indo ao banheiro”, explica.

O banheiro foi o cenário do assédio. “Como era um banheiro apertado, ele entrou correndo. Ele não entrou afastado, nem pediu licença. Ele veio com tudo pra cima da gente. Ficou falando coisas ruins para minha cunhada, chamando ela de gostosa, que queria ficar com ela e com a “amiga gostosa”, relembra. Ele é o advogado José Geraldo Lucas Junior, 27 anos, apontado pela polícia como responsável pelos disparos que mataram Lucas. 

Enquanto o advogado continuava pressionando Marisa, Any diz que começou a gritar e foi nessa hora que Lucas e o irmão, Lauro, perceberam que algo estava acontecendo. “O cara não ia usar o banheiro, ele estava na porta onde estava minha cunhada. Então o cara começou a discutir com meu esposo, então meu cunhado veio para saber o que houve”, continua.

A postura de Lucas foi conciliatória, diz Any. “Depois disso ele (José Geraldo) mudou de mesa e foi para em frente ao bar, e começou a fazer ligações. Neste meio tempo meu cunhado ficou tentando amenizar, dizendo que estava tudo bem”. Marisa percebeu a ligação e temeu que algo pudesse acontecer. “Nessa hora ele estava sozinho e sentou na frente da nossa mesa para nos pirraçar. Toda hora mostrando o copo para mim e para ela. De novo insistindo em mim e nela, com a gente do lado de meu cunhado e meu esposo”, conta ela.

Nesse momento, os casais já tinham pedido a conta e aguardavam para pagar e ir embora. José Geraldo ficou na mesa continuando a fazer ligações. Pouco depois, o amigo dele, Jean, chegou, aparentemente armado. “Na câmera mostra que ele toda hora mexia na cintura”, diz Any. A polícia acredita que Jean foi quem buscou a arma, uma pistola 9mm, que José Geraldo usou para matar Lucas.

Foi na hora que o grupo ia embora que o crime aconteceu. “Quando estávamos saindo, vieram com tudo pra cima de meu esposo, para poder dar um murro nele. Só que, graças à Deus, esse murro não pegou. Se pegasse quem seria alvejado seria meu esposo. Eu entrei no meio para tentar afastá-lo de meu esposo”, explica.

Lucas entrou na confusão para defender a cunhada e tirar o irmão dali. “Foi quando ele tirou a arma e atirou sem dar chance de defesa”, conta a cunhada.”Começamos a correr, nos esconder. Ele ainda chegou a apontar a arma para a minha cunhada e ela pediu misericórdia, chorando. Então ele fugiu em direção às barracas”, acrescenta. O grupo voltou para dar socorro a Lucas. Uma enfermeira que estava no local tentou reanimar o barbeiro, mas ele já estava sem vida. 

As testemunhas do crime ainda estão sendo ouvidas. Advogados que representam a família da vítima foram à delegacia hoje para ver as imagens das câmeras de segurança do bar.

Prisão
Os dois acusados de envolvimento no crime foram presos ontem. O advogado José Geraldo Lucas Junior, 27, se apresentou e foi preso. Um segundo envolvido, amigo de José Geraldo e identificado só como Jean, também foi detido. Houve muita comoção e a mãe de Lucas chegou a passar mal com a chegada dos suspeitos.

Os acusados alegam legítima defesa, mas a família nega que Lucas tenha feito algo contra ele. “Meu marido não teve tempo de fazer nada. Ele deu um tiro sem meu marido nem tocar nele. Ele veio de lá sorrindo, eu não vou esquecer. Ele premeditou tudo, tirou foto da gente”, diz Marisa, viúva de Lucas.

O crime aconteceu em um bar no Imbuí depois que José Geraldo, segundo as testemunhas, seguiu a esposa e a cunhada de Lucas até o banheiro. Elas entraram no cômodo para fugir ao assédio, mas ele entrou logo atrás, relatam. Lucas e o irmão foram então tirar satisfação com José Geraldo, que estava acompanhado do amigo Jean.

O irmão de Lucas, Lauro, conta o que aconteceu. “Ele me deu um soco, eu fui agredido pelo assassino do meu irmão. Eu não fiz nada com ele, meu irmão não fez nada com ele, a minha esposa e a esposa de meu irmão não fizeram nada com ele. Quem fez foi ele. As câmeras estão lá”, afirma.

Lucas morava em São Cristóvão e tinha uma barbearia em Pernambués. Ele deixou uma filha de 8 anos e um de 4. A avó disse que os netos sentem a falta do pai e ainda não entenderam o que aconteceu. 

Segundo a Polícia Civil, também foram apresentadas no DHPP as roupas dos suspeitos e a pistola 9mm usadas no dia do crime. Os dois presos serão interrogados e passarão por exame de lesões. A polícia informou também que vai analisar as imagens das câmeras do estabelecimento.

Crime
O crime aconteceu em um quiosque ao lado da Barraca do Zurca, na Praça do Canal. Houve muita correria no local. Lucas estava no bar com a esposa, o irmão e a cunhada. Quando as mulheres levantaram para ir ao banheiro, um dos suspeitos teria ‘mexido’ com a mulher dele. Lucas então se aproximou para tirar satisfação, mas os dois brigaram. O advogado estava armado e atirou. 

Lucas foi baleado na cabeça e no peito e morreu no local. De acordo com a 39ª Companhia Independente de Polícia Militar (CIPM/Boca do Rio), na noite do crime, o Centro Integrado de Comunicações (Cicom) acionou policiais militares da unidade após informações de disparos de arma de fogo. No local, a equipe já encontrou a vítima sem vida e isolou a área para perícia.

(Foto: Reprodução)

O advogado do suspeito disse à TV Record que o cliente tem autorização para portar arma e que o crime “foi um fato isolado”. “Foi um fato isolado na vida, nunca teve problema, por isso não vai ficar assim. Infelizmente está sendo acusado dessa fatalidade, não podemos acusar, estou aqui para buscar uma resposta sobre uma punição dentro dos rigores da lei, onde seja preservado o mais amplo direito de defesa”, disse Antônio Glorisman.

Ele ainda não conversou pessoalmente com o cliente e não tem detalhes da versão dele para o caso. “Não se trata de um bandido, se trata de uma pessoa que em um momento de turbulência, não se sabe de como aconteceu os fatos, é isso que o delegado está tentando apurar buscar efetivamente”.

O irmão de Lucas usou as redes sociais para lamentar a morte do jovem. “Não existe dor maior do que uma dor de um irmão, um pai e uma mãe. Você me entendia, a gente era um só carne e osso”, escreveu Lauro. “Antes de você morrer, você falou que pessoas boas morrem cedo, você disse que me amava, ligou pra meu pai, pra meu irmão Léo, disse que amava Marisa e beijou a mão de minha esposa como uma despedida”, continuou. “Você está cravado no meu coração. Te amo, meu irmão”.

(Foto: Reprodução)