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Danilo e Sandry, os novos baianos na final da Libertadores

Sandry e Danilo, volantes de Santos e Palmeiras respectivamente

Palmeiras x Santos, neste sábado (30), às 17h, é um clássico paulista, entre os dois maiores campeões brasileiros, na final da Libertadores da América. Mas a Bahia também estará muito bem representada. De um lado e do outro, estarão meninos com uma perspectiva brilhante de futuro no futebol.

Danilo nasceu no dia 19 de abril de 2001, no bairro do Alto do Cabrito, na capital Salvador. Hoje, aos 19 anos, é titular do Palmeiras de Abel Ferreira. Já Sandry nasceu em 30 de agosto de 2002, no bairro Califórnia, em Itabuna, no Sul baiano. Aos 18 anos, é figura frequente nas escalações do Santos sob comando de Cuca. Algo em comum? Ambos são volantes.

Ao saber que eles são baianos, uma pergunta pode vir à mente do torcedor: será que eles jogaram na base da dupla Ba-Vi? A resposta é que um sim, mas foi dispensado sem muitas explicações. O outro nem chegou perto disso: foi rapidamente captado pelo Santos por meio de um vídeo publicado no Youtube.

Danilo chegou ao Bahia com oito anos. Aos 15, em 2016, acabou cortado: “Ainda me lembro. Foi num sábado, ele tinha ido treinar e me ligaram dizendo que era pra pegar as coisas dele porque tinha sido dispensado. Eu liguei pra direção, quis saber o que tinha acontecido, mas não me disseram anda”, lembra Lourival de Oliveira, 54 anos.

Até hoje, o pai do volante não soube o motivo da dispensa: “O pessoal de lá me dizia que já era certo, que seria prata da casa do profissional. Mas aí veio aquela época que o Bahia trocou muito de direção (após a intervenção, em 2013) e aí todo ano trocava de treinador e foram encostando ele. Danilo ficou quase um ano sem jogar, só treinando. Daí o último técnico que entrou mandou embora. Tanto é que depois a direção me disse que nem sabia que ele tinha passado pelo clube”.

Danilo foi dispensado do Bahia na categoria infantil
(Fotos: Acervo pessoal)

A dispensa chateou Lourival, que é tricolor fanático. O pai não pensava em outro clube para que o filho começasse no futebol, e se esforçou para isso. “Um dia, vi que estavam fazendo peneira no Bahia e resolvi ligar pra lá, sem saber de nada, né. Mas aí o rapaz me disse que só podia pra maior de nove anos. Danilo na época tinha oito e pouco. Eu desliguei, fiquei remoendo… Aí eu falei ‘ó, quer saber, vou ligar de novo e dizer que você tem nove anos’”, lembra, rindo.

“Arrumei um carro aqui com um amigo, peguei dinheiro para botar gasolina e fui pro Fazendão. Tinha mais de 100 meninos. Danilo fez gol em todos os três testes. Ivan (Conceição) e Motta (Newton, ex-dirigentes da base tricolor) vieram me procurar na hora”, recorda o pai. Segundo ele, Danilo também ficou feliz da vida, pois sempre o seguiu no amor pelo Bahia.

Talento visto pelo YouTube

De Itabuna até Salvador são 430 km de distância, mas Sandry precisou rodar muito mais para fazer o seu primeiro teste. O garoto, campeão mundial sub-17 em 2019 pela seleção, nunca tocou numa bola no Bahia, no Vitória, nem em qualquer clube baiano. Saiu direto da AABB da sua cidade para a Vila Belmiro, distante 1740 km.

Sandry, nome inspirado no do ex-técnico Lori Sandri, é filho de Carlos Roberto Góis, 43 anos, conhecido como Nenenzinho. Aposentado em 2012, o ex-volante se destacou pelo Itabuna e também defendeu Londrina-PR, Oeste-SP, Colo-Colo, Serrano, Poções e outros clubes baianos.

“Ele viajava comigo o tempo todo. Antes dos jogos, levava pro vestiário e ele aquecia comigo. Em dia de (treino) recreativo ele entrava no campo e fazia uma festa com os caras”, lembra o pai. “Agora os amigos veem ele assim, grandão, e comentam comigo: ‘Rapaz, aquele moleque que a bola era maior do que ele hoje está jogando a Libertadores”.

Sandry, quando criança, acompanhando Nenenzinho, à epoca jogador do Itabuna
(Foto: Acervo pessoal)

O garoto deu os primeiros toques no futsal do Colégio Estadual Sesquicentenário (Ciso), sob comando do treinador Vladistone Menezes, o Toni, um dos mais conhecidos de Itabuna: “Eu era professor de Educação Física e logo vi a qualidade dele, o modo diferenciado de tocar na bola, de visão de jogo. Já com seis anos colocávamos ele para atuar com crianças dois anos mais velhas, pois na categoria dele ele deslanchava e ficava muito acima tecnicamente dos demais”.

Esse perfil de atuar com atletas mais velhos seguiu quando Sandry foi para o futebol de campo, na AABB, aos nove anos, também com Toni. Aos 10 anos, o garoto já enfrentava meninos de até 14 anos. Foram esses jogos, na grama ou no futsal, que acabaram parando no YouTube.

Nos vídeos, um pequenino Sandry aparece driblando, antecipando e deixando para trás garotos nitidamente mais altos e mais velhos. “Eu peguei uma câmera emprestada da minha irmã e comecei a gravar. Não tinha prática nenhuma (risos). A prima dele aprendeu a editar e a subir no YouTube. E assim a gente foi caminhando”, lembra Nenenzinho.

Foram esses vídeos que chegaram ao Santos e o clube rapidamente marcou um teste. Na mesma época, olheiros do Bahia estiveram em Itabuna para observar Sandry. Adoraram e tentaram ao máximo convencer Nenenzinho. Tarde demais: era 2012, e o Peixe acabara de conquistar a Libertadores no ano anterior com Neymar, Ganso e outros meninos da Vila. Concorrência pesada.

Fazenda Coutos, Cajazeiras e Palmeiras

Antes de ser dispensado do Bahia, Danilo já jogava pelo Olímpia, time amador do bairro de Fazenda Coutos III, onde morava desde os três anos. Foi ali que o garoto ressurgiu para o futebol.

“Ele me chamou muito a atenção num torneio de adultos que disputou no Campo do Realce, em Fazenda Coutos. O local estava lotado, várias apostas, discussão, instrumentos de percussão, fogos… E Danilo acabou com o jogo”, lembra Igor Manassés, filho do pastor que batiza um dos mais conhecidos institutos sociais da Bahia.

“Num campo de terra, com uma cobrança enorme do lado de fora, e ele com 15 anos jogando muito. Foi aí que eu vi que Danilo jogaria em qualquer clube do Brasil. Se ele conseguiu jogar daquele jeito sob pressão, na favela, com gente armada olhando… Ele jogaria em qualquer ambiente”, completa Igor.

O empresário já conhecia Danilo do projeto social ‘Os Deguinhos da Bola’, mantido pelo Instituto Manassés e onde o garoto fez escolinha. Ao saber que o aluno tinha sido dispensado do Bahia e vendo aquela atuação, procurou Seu Lourival e ofereceu um contrato profissional para ser assinado assim que ele fizesse 16 anos – idade mínima permitida por lei.

À época, Danilo já tinha sido chamado para os times sub-17 de Vitória e Jacuipense, mas seu pai optou pela proposta de Manassés por causa das dificuldades da família: “Os outros não davam nem transporte, eu que me acabava para bancar. Igor chegou bancando tudo, assinando carteira e pagando salário de profissional. Ia ajudar muito a gente”.

O primeiro clube foi o PFC Cajazeiras, administrado pela família Manassés. Aos 16 anos, o volante participou da 2ª divisão do Campeonato Baiano de 2018. Logo depois, foi levado por Igor para fazer teste no Palmeiras. Foi muito bem recebido pela comissão do Verdão, repleta de baianos: João Paulo Sampaio (diretor), Wesley Carvalho e Gilmey Aymberê (técnico e auxiliar do sub-20), Hamilton Mendes (à época técnico do sub-17), entre outros.

“Igor levou dizendo que ia passar 15 dias com ele lá em São Paulo. Já tem três anos”, brinca o pai, Lourival. Danilo foi contratado primeiro por empréstimo. Em setembro de 2020, acabou comprado pelo Palmeiras por R$ 500 mil. O Cajazeiras segue com 40% dos direitos econômicos.

Danilo assinando seu primeiro contrato profissional, com o PFC Cajazeiras, em 2017
(Fotos: Acervo pessoal)

Dois dias num ônibus e o pai sem comer

A ida de Sandry da Bahia para São Paulo foi mais custosa: “Na época a situação financeira daqui de casa estava complicada, tive que pedir ajuda aos amigos para comprar a passagem de ônibus. Passamos mais de dois dias viajando, eu e ele”, lembra Nenenzinho.

“Eu não fiz refeição nenhuma nessa viagem. Tudo o que conseguia comprar dava pra ele. Sandry percebeu e me perguntou: ‘É porque não tem dinheiro, né, pai?’. E eu disse ‘filho, não fica preocupado, o que importa é você comer bem para jogar bem’. Acho que aquilo mexeu e deu muita força a ele”, conta, emocionado.

Aos 10 anos, mais uma vez em meio a garotos mais velhos, Sandry arrebentou nos testes e foi aprovado. Em dois meses, a mãe, Adriana, e a irmã mais velha, Alice, também se mudaram para Santos, onde a família vive há nove anos.

A precocidade sempre foi companheira Aos 14 anos, ele treinou pela primeira vez com o time profissional, levado pelo ídolo Elano, então membro da comissão técnica de Levir Culpi. Aos 15, disputou sua primeira Copa São Paulo, torneio que permite atletas até 20 anos.

Em janeiro de 2019, estreou pelo profissional do Santos na goleada por 4×1 sobre o Bragantino, pelo Paulistão, sob comando de Jorge Sampaoli. Tinha 16 anos, cinco meses e um dia, o que faz de Sandry o quinto jogador mais jovem da história a vestir a camisa do Peixe – atrás de Coutinho, Ângelo, Pelé e Gabigol.

Sandry foi titular contra o Boca Juniors na semifinal da LIbertadores
(Foto: Ivan Storti/Santos FC)

O sonho da Libertadores

A carreira de Danilo como profissional do Palmeiras é bem mais curta: são apenas quatro meses. A estreia, coincidentemente, também foi contra o Bragantino – já como Red Bull – no atual Brasileirão. Foi no dia 6 de setembro, alçado pelo então técnico Vanderlei Luxemburgo. O baiano entrou no segundo tempo da vitória por 2×1.

A ascensão até a titularidade, especialmente após a chegada do português Abel Ferreira, foi meteórica. O pai Lourival é muito grato aos técnicos, mas como bom torcedor, corneta: “Danilo nunca foi volante. Danilo é meia-atacante. Ele tá jogando de volante porque Luxemburgo botou, ele se acostumou, e agora já foi. Mas ele é meia-atacante. Se botar ele do meio pra frente, Danilo vai fazer miséria. Eu conheço, rapaz… Pode botar que ele vai fazer gol e jogar muito”.

Seu Lourival não se empolga em nada com a fama repentina do filho. Pelo contrário, tem pedido a ele pés no chão: “Está ficando melhor agora, porque está perdendo o medo, mas Danilo ainda é muito novo, ainda precisa aprender muita coisa. A única coisa que eu peço a ele é: ‘Mu filho, tenha pés no chão e treine forte todos os dias’. Porque treinador repara em jogador no treino. Como foi que Luxemburgo reparou nele?”.

Seu Lourival vai além. Não pensa por enquanto em se mudar para São Paulo e também não quer que o filho seja vendido para a Europa, não importa o valor: “Se ele for campeão agora, vai ser difícil segurar. Mas eu queria que ele ficasse mais tempo no Brasil. Amadureceria mais e iria para um time maior, sabe? Ele é muito novo”.

Danilo em ação no jogo de volta da semifinal contra o River Plate
(Foto: Cesar Greco/Palmeiras)

O olho sobre Sandry é ainda maior. O garoto santista é convocado para a seleção brasileira desde os 15 anos. Sub-15, sub-17 e agora sub-20. “Ele nasceu com o dom. Desde cedo eu percebi que seria isso daí. Então o que eu mais peço a Deus todos os dias é sabedoria para poder lapidar a joia direito, para não estragar. A responsabilidade é muito grande”, diz Nenenzinho.

O menino, que chegou ao Santos motivado por uma Libertadores e por Neymar, está prestes a realizar um sonho: “Em 2019, ele deu uma entrevista para Ademir Quintino (repórter local) e disse que o sonho era jogar uma Libertadores e ser campeão pelo Santos. Tá aí o vídeo na internet para quem quiser ver”, avisa o pai. Assista abaixo:

Mas há sonho também do outro lado: “Eu ligo para Danilo antes e depois de todo jogo. Mesmo quando perde, eu acalmo ele dizendo que isso é do futebol e não dá para ganhar todas. Mas já avisei que no sábado eu não quero perder. Quero ver meu filho na história”, diz Lourival, que pretende dar uma segunda chance ao seu time do coração: “Eu tenho um filho mais novo, Jonas. Tem nove anos. Esse eu estou guardando para o Bahia. Vai ser melhor que o irmão”.

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