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Entrevista com Eduardo Ledsham: ‘A Fiol vai muito além da Bamin, é um fato’

Eduardo Ledsham, presidente da Bamin

O número de 55 mil empregos criados nos próximos cinco anos em virtude da implantação de um trecho de 537 quilômetros de uma ferrovia ligando as cidades baianas de Caetité e Ilhéus pode impressionar, mas é real. Eduardo Ledsham, presidente da Bamin, diz que nos próximos 120 dias a empresa pretende detalhar quando serão geradas essas vagas, onde elas estarão disponíveis e como vai se dar o processo de preenchimento delas. 

O executivo da mineradora proprietária do projeto Pedra de Ferro – que a partir de 2026 vai produzir  quase 20 milhões de toneladas de minério de ferro por ano na Bahia – destaca que a vitória da Bamin para concluir e operar o primeiro trecho da Ferrovia de Integração Oeste-Leste foi mais do que uma vitória para a empresa: “A Fiol vai muito além da Bamin, é um fato.  O número de retornos que nós já tínhamos e que agora estão sendo reforçados, as oportunidades que surgem ao longo da ferrovia são enormes”. 

Eduardo Ledsham conta que diversas empresas manifestaram o interesse em participar do leilão para a concessão da Fiol, e procuraram a Bamin em busca de parcerias, entretanto a ERG, empresa que é dona da mineradora, optou por manter o controle das três etapas do processo: mina, ferrovia e porto. Segundo o presidente da Bamin, a empresa pretende ter em janeiro de 2026 mina, ferrovia e porto concluídos. 

Entretanto, ele complementa dizendo que a empresa estará sim sempre aberta a parcerias. “Naturalmente, quem tiver interesse vai aparecer e nós estamos abertos a conversar”, destaca. 

Quem é: Eduardo Ledsham esteve à frente do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), ligado ao Ministério de MinaseEnergia, de agosto de 2016 a agosto de 2017. Entre 2012 a 2015 foi CEO da B&A Mineração. Foi também Diretor Global de Exploração e Desenvolvimento de Projetos Minerais e Diretor Global de Energia, Fertilizantes, Exploração, Desenvolvimento e Implantação de Projetos na Vale, onde atuou por 26 anos. É formado em Geologia pela Universidade Federal de Minas Gerais.

Uma coisa que chamou atenção no leilão foi a ausência de concorrência. Surpreendeu ou foi algo esperado?
Como se sabe é a carga da Bamin que alavanca o início da Fiol, então todos os interessados estariam nos procurando para ter a segurança em relação a esta carga. Vários interessados nos procuram. O que o acionista percebeu foi a oportunidade de começar a obra. Nós continuamos abertos a ter parcerias, mas o core business (a atividade básica) da Bamin, da ERG (principal acionista da mineradora), é de ser operador. Nós estamos aqui para entregar e não para especular. Nós temos a oportunidade de entregar resultados, desenvolvemos a mina, iniciamos uma operação, já começamos o porto… 

Isso tudo nos coloca numa posição mais confortável para entrar na disputa porque já acompanhamos o processo há muitos anos, desde a primeira audiência pública já vínhamos nos preparando.  Agora, que a Fiol vai muito além da Bamin, é um fato.  O número de retornos que nós já tínhamos e que agora estão sendo reforçados, as oportunidades que surgem ao longo da ferrovia são enormes. Você tem outras mineradoras com depósitos próximos, novas descobertas acontecendo. Isso tudo vai acelerar porque agora a infraestrutura será realidade com a carga da Bamin. Naturalmente, quem tiver interesse vai aparecer e nós estamos abertos a conversar. 

A operação se inicia apenas com a carga de vocês, ou até 2025 já teremos cargas de terceiros?
Já visualizamos um volume externo. Não é grande, porém já dará uma credibilidade. Vamos investir em um terminal seco em Caetité para quem está num raio de influência que justifique levar os produtos pela rodovia até lá. Essas cargas já serão escoadas pela ferrovia. 

Agora, o grande polo produtor da Bahia, que está lá em Barreiras, vai depender da Fiol II. Então, à medida que a realidade e o avanço das obras se concretizem, eu não tenho a menor dúvida de que essa aceleração vai ser muito natural. O ministro (Tarcísio Freitas, da Infraestrutura) colocou que vai acontecer em breve o leilão deste outro trecho também. Sem contar a Fiol III, que vai se conectar com a Fico (Ferrovia de Integração do Centro-Oeste) e com a Ferrovia Norte-Sul. Numa visão de longo prazo, isso tudo vai cruzar o estado da Bahia. 

Neste cenário mais amplo, é importante para vocês se manterem à frente desta operação, ou pretendem investir em parcerias para operar o porto e a própria ferrovia?
Hoje o nosso negócio é ser operador. Estamos abertos a ter parcerias. O que a gente quer é ter garantias de que a realidade da ferrovia e do porto aconteça. É um caminho natural aparecerem outros interessados, mas nós somos a locomotiva deste trem aí. 

Uma das coisas que você falou que mais chamou a atenção foi sobre o plano de bancar o investimento com capital próprio. Provavelmente, o cenário de valorização do minério de ferro e a própria cotação do dólar favoreçam essa posição. Neste contexto, vocês analisam novos investimentos aqui na Bahia ou mesmo em outros lugares do Brasil? 
A gente analisa sempre, mas hoje o nosso foco se chama Pedra de Ferro, Fiol e Porto Sul. Oportunidades, naturalmente, vão acontecer, a gente está avaliando, este caminho é natural. O Brasil hoje, com esta combinação de um câmbio favorável para o investidor, um celeiro de mão de obra disponível e o avanço das obras de infraestrutura, trazendo uma segurança jurídica e institucional, sem a menor dúvida, o volume de recursos que vão vir para investir em novos projetos tende a crescer muito. 

A ERG, dona da Bamin, bancou este projeto durante 16 anos com praticamente nenhum retorno. A que você atribui essa demonstração de confiança?
Tem uma palavra-chave chamada resiliência. Quando você acredita em seu ativo, na capacitação técnica do seu time e no país – se você analisar a evolução que tivemos nos últimos 16 anos – é algo que vai acontecer. Essa confiança se deveu à certeza de que isso é uma realidade. 

O cenário de preços é muito favorável à produção do minério de ferro. Hoje vocês têm uma operação que movimenta um milhão de toneladas por ano e pretendem dobrar isso no ano que vem. O que está sendo projetado para esta operação até 2025, quando ferrovia e porto devem estar prontos?
Nós estamos falando de um milhão de toneladas neste ano e já estamos falando em 825 empregos diretos gerados. Indiretos, passa de 1,6 mil. Aqui eu estou falando da operação da mina e das obras de construção do Porto Sul. Com a mina expandindo para dois milhões de toneladas, utilizando a infraestrutura existente, estamos trazendo uma carga nova para a FCA (Ferrovia Centro-Atlântica, operada pela VLI), viabilizando a estrutura que vai para o norte da Bahia, que tem um volume pequeno; temos dois portos, Aratu e a Enseada, que podem manusear estas duas cargas. Este volume nós queremos manter até a entrada da escala maior, em 2026.

Podemos manter depois um volume menor, para justificar investimentos tanto para a FCA quanto para os portos. A limitação é só a logística. Se demonstrar que há espaço para três milhões, nós ampliamos para três milhões. Minério de ferro depende da escala e a escala depende da logística. Se houver a ampliação, vamos usar o máximo possível. 

O governo federal destacou muito o número de 55 mil empregos criados com a operação da ferrovia. Como vai ser a mobilização de uma quantidade tão grande de pessoas?
Durante os próximos 120 dias vamos nos debruçar em nosso planejamento. Vamos trabalhar este número de 55 mil postos de trabalho em detalhes e distribuir isto ao longo do tempo. Lembrando que esta é uma obra de 5 anos e naturalmente terá períodos de pico e outros menores. Vamos detalhar e investir o máximo possível para a formação de mão de obra local. Hoje, em Caetité e em Ilhéus, 78% é mão de obra local. Nas obras iniciais em Ilhéus, começamos com um treinamento de 500 pessoas. 

Temos que buscar parcerias para implementar, formar e distribuir ao longo do tempo. É um caminho natural. A ferrovia são 537 quilômetros, então vão ter polos que vão centralizar parte destas obras. Vamos estruturar muito bem o planejamento de formação desta mão de obra porque nosso foco é trabalhar o máximo com a mão de obra local. Parte dela já está disponível. 

Em 120 dias já teremos obra na ferrovia?
Teremos um planejamento e aí vamos fazer cotação com fornecedores de serviços, empresas de construção… Isso precisa ser feito junto com os provedores de serviço, mas esta é uma obra que vai ampliando o seu ritmo no decorrer do tempo e deve chegar ao pico entre 2022 e 2023. 

E o Porto Sul? Nesses 16 anos, nos acostumamos a ver momentos em que a ferrovia avançava e o Porto não. Em outros, era o contrário. As duas obras estarão prontas em 2025?
Estamos completando um ano de obras no Porto Sul. Estamos avançando. Essas obras iniciais vão até agosto do ano que vem. A partir daí serão as obras offshore (no mar). O maior tempo de duração da obra está no porto, por isso que é importante entender que não justifica concluir a ferrovia sem ter o porto. O cronograma está totalmente ajustado entre as três partes deste projeto: mina, ferrovia e porto, num horizonte aí de até cinco anos. 

A mina está pronta para entregar as 18 milhões de toneladas de minério de ferro por ano?
A gente precisa fazer um investimento na mina. Tem um investimento que será feito na ampliação dela, na planta de concentração, na infraestrutura, precisamos conectar nosso terminal ferroviário com a Fiol. Essa implantação demora 26 meses. Este cronograma também estará ajustado para produzir na escala de 18 milhões de toneladas a partir de 2026. O que a gente vai fazer em paralelo, à medida em que comecem os investimentos na planta, é manter a operação de dois milhões de toneladas por cinco anos. 

Todas as 20 cidades cortadas pelo primeiro trecho da Fiol serão beneficiadas?
O caminho natural aí para os 20 municípios, incluindo Caetité e Ilhéus, é de se criarem novas oportunidades, com outras cargas que poderão ser ofertadas. Terminais podem ser criados em função destas cargas. Vamos começar a operação com 12 pátios, mas este número deve chegar a 36.  Isso tudo próximo a essas comunidades. E ao longo do período de construção, acredito que alguns serão polos maiores, usados como bases da construção.

Quanto tempo a composição vai levar para percorrer os 537 quilômetros?
O ciclo desta operação é estimado em oito horas. Como vai ser um projeto novo, vamos investir em equipamentos rodantes que utilizem energia renovável. Queremos maximizar o máximo a oportunidade que existe na Bahia. A mina está o lado de um polo de produção de energia eólica. Vamos substituir um grande volume de emissão de CO2 – a ferrovia traz essa oportunidade única. 

As locomotivas serão movidas a energia elétrica?
É uma alternativa que estamos avaliando. Faz parte deste planejamento buscar um alternativa limpa. Hoje nós temos a missão de correr atrás de um selo verde para o nosso produto. Na mina iremos recircular mais de 90% da água utilizada. O volume de água nova será muito pequeno. Vamos buscar energia renovável. Vamos transportar o minério por ferrovia. E o nosso minério, por si só já tem uma característica interessante, ele reduz a emissão de CO2 no processo da siderurgia. Então, na cadeia inteira temos fundamentos para colocar um selo verde no produto. Nós somos pequenos, mas pode ter certeza de que seremos os melhores. 

Como é que o setor mineral está trabalhando essa questão da sustentabilidade?
Todos estão trabalhando em busca disso. Esta é uma agenda positiva na qual o mundo caminha. Hoje até financiamentos vão exigir comprometimento nessa linha.