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Já tomou a Coronavac? Imunização só é garantida após segunda dose, diz Butantan

Não adianta só tomar uma dose da Coronavac para achar que está imunizado da covid-19. A vacina produzida no Instituto Butantan em parceria com a fabricante chinesa de medicamentos Sinovac Biotech é composta por duas doses de 0,5 mililitros, que precisam ser tomadas em intervalo de duas a quatro semanas entre elas.  

A informação é do próprio Instituto Butantan, que alerta para a necessidade da vacinação estar de acordo com a forma que o estudo de desenvolvimento do imunizante foi conduzido. “Os estudos clínicos de fase 3 da vacina contra o novo coronavírus realizados no Brasil com cerca de 13 mil voluntários foram baseados a partir da aplicação de duas doses do imunizante”, lembraram, em nota.  

O alerta do instituto aconteceu depois que o secretário municipal de Saúde do Rio de Janeiro, Daniel Soranz, sugeriu em entrevista à TV Globo que a cidade poderia usar de uma vez só as 230 mil doses da Coronavac destinadas ao município. Isso dobraria o número de vacinados previstos, mas poderia não garantir a entrega da segunda dose para todos dentro do prazo estipulado.   

A médica infectologista Jacy Andrade, professora da Universidade Federal da Bahia (Ufba), explica que o Instituto Butantan não é responsável pela vacinação das pessoas, mas esse processo deve obedecer ao estudo que desenvolveu o imunizante. “É uma vacina recente, nova, cujos testes de avaliação e eficácia foram realizados com um determinado esquema, o de duas doses. Quando a gente usa uma vacina, não pode por vontade própria mudar o esquema recomendado. Quem tem experiência para dizer que ao tomar apenas uma dose a vacina vai funcionar?”, questiona.  

“Não é que a vacina perca a eficácia caso apenas uma dose seja tomada, mas para ter a proteção adequada, conforme avaliado no estudo, é preciso as duas doses. Será que uma dose apenas terá o mesmo efeito de duas doses para prevenir formas graves? Não se sabe, pois isso não foi estudado e por isso não se pode fazer mudanças”, alertou a médica.  

Em nota, o presidente do Instituto Butantan, Dimas Covas, explicou a importância de seguir o esquema adotado. “Na utilização dessa vacina em comunidade, o esquema de até 28 dias (quatro semanas) é seguramente o ideal exatamente para permitir uma maior cobertura inicial enquanto as vacinas vão chegando. Isso faz todo o sentido do mundo. O que não faz é dar uma dose só”, afirmou. 

Exemplos 

Aqui, para garantir que as cidades imunizem as pessoas com as duas doses, a Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab) reteve metade das mais de 376 mil doses da Coronavac enviadas pelo Ministério da Saúde. As outras 188 mil doses foram distribuídas para as 417 cidades baianas, sendo 45 mil doses para Salvador.  

Inicialmente, a Secretaria Municipal de Saúde de Salvador (SMS), chegou a reter metade das 45 mil doses que recebeu do estado no primeiro momento, para garantir a oferta da segunda dose. Porém, já redimensionou o seu esquema de vacinação, ciente de que tem a garantia das 45 mil doses de reforço, reservadas pelo governo estadual.
 

“A gente está melhorando o nosso controle. Estamos falando de uma vacinação de 3 milhões de pessoas e de profissionais que são competentes, mas estão exaustos. É um cenário complexo, difícil e duro, que gera até injustiça. Tem categorias dentro da própria secretaria que ainda não conseguiu tomar vacina”, comentou o secretário de Saúde Léo Prates. 

Dentro desse cenário difícil, ele incluiu também a chegada iminente da vacina de Oxford como um possível problema, pois serão dois tipos de vacinas numa mesma fase. “Nós esperávamos ter várias vacinas durante todo o período de vacinação, mas esperávamos também trabalhar dentro de segmentos com cada tipo de vacina. Por exemplo: com idosos ser com a de Oxford. Com profissionais de saúde ser a Coronavac. Mas como as doses estão vindo fracionadas, a verdade é que nós estamos trabalhando com o pior cenário: poucas doses e mais de um fabricante”, explicou Prates.  

Procurada, a Sesab informou que ainda não há um comunicado oficial de quantas doses da vacina de Oxford devem ser enviadas para o estado. Disse também que não há problema com tipos diferentes de vacinas. “O Programa Nacional de Imunização trabalha com mais de 40 imunobiológicos, então é rotina para a equipe”, disseram.  

Oxford 
Segundo cálculos do prefeito Bruno Reis, Salvador deve receber 15 mil doses da vacina de Oxford, que também devem ser aplicadas em duas doses. O imunizante foi desenvolvido pela universidade inglesa em parceria com a farmacêutica AstraZeneca e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). As primeiras 2 milhões de doses chegaram nessa sexta ao Brasil.  

Nessa quinta-feira (21), em entrevista à GloboNews, o vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde da Fiocruz, Marco Krieger, sugeriu que a vacina de Oxford seja aplicada em dose única num primeiro momento e não duas como diz o fabricante. A intenção aqui é justamente vacinar o maior número de pessoas. O CORREIO entrou em contato com a Fiocruz para entender se essa recomendação será oficial, mas não obteve resposta até o fechamento do texto.  

Em Israel, que tem utilizado doses únicas da vacina da Pfizer para vacinar a população, foi observado que o imunizante foi menos eficaz do que o esperado, pois o país relatou recorde de 10 mil novas infecções por covid nessa semana.  “É menos eficaz do que pensávamos”, disse Nachman Ash, chefe do programa de combate à Covid-19 do país, em entrevista à rádio do Exército Israelense. A Pfizer recomenda a aplicação de duas doses.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) frisou a necessidade de que a espeficificação dos laboratórios sejam cumpridas. Apesar disso, a agência disse que não há punição para quem descumpra o que está fixado na bula de cada vacina.

Decisão da Diretoria Colegiada do órgão nesta sexta-feira aprovou a autorização emergencial de uso de 4,8 milhões de doses do Instituto Butantan. Em seu voto, a relatora do tema, Meiruze Freitas, destacou a importância de seguir o intervalo previsto entre as doses. “No campo da atuação regulatória, temos que não há estudos e dados suficientes para afirmar que os benefícios de ampliar o intervalo de doses da vacina coronavac estabelecida na bula superam os riscos”, avisou.

O gerente geral de Medicamentos da Anvisa, Gustavo Mendes, corroborou a fala da diretora. “A nossa expectativa é que os estados cobrem a efetiva implementação do que está escrito na bula, porque é nesse intervalo que está a faixa ideal de utilização dessa vacina”, afirmou.

Com a aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o novo lote de 4,8 milhões de doses da coronavac poderá ser distribuído para estados e municípios, aliviando, em partes, o temor de que a vacinação poderia ser interrompida por falta do medicamento. A autorização vale para qualquer dose produzida em território nacional a partir de agora.
 

* Com orientação da subchefe de reportagem Monique Lobo