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Karol Conká: do lockdown ao direito de se reinventar

Em meio a notícias de ampliação das restrições, possibilidade de lockdown em muitas cidades e de um iminente colapso no sistema de saúde, sem falar na crise da Petrobras, o Brasil começou a semana com o desejo de trazer a cantora Karol Conká de volta à vida dos mortais – e consequentemente, do isolamento à percepção do cancelamento.

Enquanto a narrativa sobre a pandemia se constrói com lados opostamente distintos, o discurso em torno do cancelamento da curitibana Karoline dos Santos Oliveira (daí o pseudônimo artístico Karol com K), ganhava espaço e unanimidade em diversas rodas de conversa, elevando a artista ao pódio de uma das mais odiadas da história dos 21 anos do Big Brother Brasil.
 
Mulher negra, assumidamente bissexual, de origem humilde, mãe solteira aos 19 anos, hoje com 35 e uma carreira consolidada, a rapper, cantora, compositora, produtora, apresentadora e atriz terá que suar para reconstruir a sua reputação. Alguns dirão que ela fez por merecer.
 
O julgamento implacável e a condenação de Karol Conká reflete as contradições do comportamento humano, e que estão no cerne da casa mais vigiada do Brasil. Ela foi protagonista de articulações internas, por eles mesmos, denominada Gabinete do Ódio.

A passagem de Karol pelas telinhas, seja nas edições do programa na TV aberta ou na liberação total de intrigas e “tretas” no chamado pay-per-view, foi contraditória, arrogante, prepotente, muitas vezes maquiavélica e polêmica, mas deixa algumas reflexões.  Somos bons em apontar os erros, e melhores ainda em querer silenciar o contraditório. A diferença está nas lentes de aumento do BBB. Façamos uma autoavaliação de quantas karois temos dentro de nós!

Se engana quem pensa que Karol foi cancelada. Não acredito que ela tombará. Talvez até aproveite a rejeição, para surfar na onda da fama [afinal muitos não a conheciam antes do programa]. E assim terá uma oportunidade ímpar de ressignificar sua carreira. E, parafraseando a psicóloga e também cancelada Lumena, “vida que segue!”

Talvez a Karol tenha nos ensinado isso: a oportunidade de enxergar e aceitar as diferenças e melhorar a cada dia. Assim ficam os aprendizados: que possamos aproveitar a experiência do BBB e enxergar na Karol o comportamento que preciso eliminar em mim; que sejamos implacáveis em cancelar os muitos gabinetes de ódios instituídos diariamente no nosso convívio; que abandonemos os ataques odiosos, inclusive à artista;  que refutemos comportamentos excludentes; mas também que sejamos mais empáticos e tenhamos a sensibilidade para ver no outro a possibilidade de se reinventar.  Seja bem vinda Conká!   

Karlo Dias, jornalista, relações públicas ou simples observador da comunicação humana