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Leia trecho inédito do próximo livro de Itamar Vieira Junior

Itamar divulga com exclusividade trecho de novo livro

“A primeira vez que ele perguntou sobre o seu pai você se sentiu vago no espaço, como se o tempo estivesse suspenso à sua volta. Neste instante vieram-lhe imagens, sons e cheiros que só você sabia que existiam. O cheiro velho da terra depois da breve chuva, e a chuva que evaporava sob o sol sem piedade; os sons e as cinzas surgidas do canavial queimado, cinzas que pareciam cair sobre o mundo como a chuva seca que não existe sob este sol lento e feroz como o fogo, nem mesmo às margens do rio com seu perfume doce e quente e que nunca cessa seu movimento. Tudo isso e mais um pouco retornava, menos o que esperava de seu pai. Então disse que ele havia morrido quando você ainda era muito criança. O pai era um jovem viúvo, e havia proposto um duelo a um concorrente, o noivo de uma mulher da aldeia, porque a desejava levar para casa. Não, não havia paixão, foi o que você repetiu de forma insistente. Aos homens da beira do Paraguaçu não foi concedida a graça da paixão. Ele queria levá-la porque talvez fosse a mais jovem, bem disposta e prendada mulher da aldeia. Porque a queria para cuidar dos seus seis filhos pequenos; a queria para cozinhar, lavar, passar, para ser o esteio da casa em ruína durante os anos que estavam por vir. Mas seu pai não teve sorte e foi surpreendido enquanto se afastava com uma garrucha antiga na mão, sem ter cumprido todos os passos, e recebeu um tiro pelas costas. O seu rival, mais jovem, precisava se mostrar homem e não estava disposto a perder sua conquista. À margem do Paraguaçu se disputava de tudo: de terra à mulher, de disposição das cercas aos animais e plantio. Seu pai tombou numa dessas disputas, longe dos olhos dos filhos. Desde então você recontava a si mesmo a história de um jeito todo seu. Naquele instante, sob o corpo do pai, talvez tivesse se formado uma considerável poça de sangue. E mais não disseram por não querer impressionar as crianças, como se isso fosse possível. Bastava olhar à volta para compreender que a violência era a alma da aldeia.”