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Odores esquisitos e paladar diferente meses depois da covid? Entenda o que é isso

“O cheiro do coentro pra mim agora é diferente, enjoado. Estranho. Muito ativo”. O aroma tão conhecido nunca mais foi o mesmo para a professora Conceição Aparecida, de 62 anos, depois que ela teve covid-19, logo no início da pandemia, em abril do ano passado. “Antes, colocava coentro em tudo, não era só no peixe não. Passei a substituir por hortelã grosso, que eu comecei a plantar aqui no quintal de casa”, completa.   

A aversão repentina ao coentro, que era ingrediente indispensável na cozinha da professora Conceição, tem uma explicação: o fenômeno se chama parosmia. É o que diz a pneumologista e responsável pelo Ambulatório Pós-Covid do Hospital Universitário Professor Edgard Santos (Hupes), Margarida Neves. A unidade é referência nesse atendimento e conta ainda com internamento de enfermaria e UTI pós-covid.  

Dos 162 pacientes cadastrados pelo Hupes, 43 tinham sintomas respiratórios. Destes, 20 apresentaram queixas de olfato e paladar. Fora a questão dos sentidos, Margarida confirma outras reclamações como queda de cabelo, inflamações na tireóide e problemas na pele.  

“No geral, a estimativa é de que um terço dos que passaram pela doença manifestam distorções tanto no olfato, quanto no paladar, que podem ser ainda mais desagradáveis. Já houve relatos de pessoas que ao tomarem café sentiam cheiro de fezes ou esgoto. Os estudos estão em andamento, inclusive, no Ambulatório Pós-Covid do Hupes”, destaca.  

Além disso, tem sido comum receber no ambulatório pacientes se queixando de zumbido, como complementa a otorrinolaringologista, pesquisadora e colaboradora do Hupes, Lorena Figueiredo. “Ainda não sabemos ao certo quais os mecanismos responsáveis por isso, mas há suspeitas de lesão direta nas células ciliadas do ouvido interno, e de alterações neurais e vasculares no sistema nervoso central ligado à audição”.    

Há quase um ano, Conceição também se incomoda com o aroma de perfumes, mas não chegou a perceber mudanças na audição. “Eu acho que ainda não estou totalmente recuperada. Qualquer perfume, para mim, parece pimenta, uma coisa bem ‘ardilosa’”. Nos últimos meses, a professora confessa que perdeu até o apetite. “Senti mais essa diferença depois da infecção. Estou comendo bem menos do que eu comia. Tem vezes que eu levo dois dias sem almoçar por falta de apetite”, conta.   

A alteração dos sentidos  pós-covid faz parte do processo de recuperação, como esclarece o presidente da Academia Brasileira de Rinologia e também da presidente da Academia Brasileira de Laringologia e Voz  (ABLV), Fabrizio Romano.  “A perda de apetite pode acontecer, assim como o contrário, um aumento na ingestão alimentar ou exagero em alimentos doces e salgados. O efeito mais frequente, ainda são as mudanças no olfato e paladar”.   

 Estre as  distorções  mais comuns, estão os odores e sabores de queimado, ferrugem, gasolina. “O Sars-CoV-2 causa uma inflamação nas células de suporte do epitélio olfatório. Isso acaba provocando uma lesão secundária nos neurônios olfatórios. A maior parte dos pacientes se recupera rapidamente, mas uma parcela tem perdas mais prolongadas, até meses após a infecção pelo vírus”, diz Romano. 

Efeitos
O mesmo incômodo surpreendeu o vereador  Duda Sanches (DEM), que se contaminou pelo novo coronavírus em junho de 2020. Só esse ano, ele recuperou 100% do olfato e paladar. No caso dele, os aromas de lavanda, menta e hortelã passaram a ser amargos e  condimentos provocaram desconforto. “Quando fui infectado, perdi completamente o olfato e o paladar que só retornaram 60%. Três meses depois da infecção, esses aromas passaram a causar um amargor”.  

Mudou a percepção dos temperos tanto com relação ao sabor, quanto ao cheiro. “Sintia de uma maneira bem diferente. A gente acaba acostumando depois de um certo tempo, mas traz um transtorno sim, por mais que tentasse administrá-lo na época”.   

Já para a funcionária pública Luciana Venezian, os aromas de café e alfazema passavam despercebidos. “Eram cheiros muito característicos para mim, só que quase não tenho mais percepção sobre eles depois me contaminei. Espero que talvez um dia meu olfato possa ser recuperado”.  

O otorrinolaringologista  e responsável técnico da Clínica Othohinus, Miguel Leal Andrade Neto, destaca que a ocorrência de casos é significativa. Ele menciona, inclusive, que um estudo publicado pela revista Nature no final de março, sugere que pacientes portadores de covid-19 com identificação do vírus na saliva podem ser mais propensos a perda do paladar. No entanto, Neto ressalta  que são necessárias novas pesquisas com um maior contingente de pessoas para comprovar a hipótese.  Segundo ele, é possível reverter esse quadro. 

“Existe tratamento tanto medicamentoso com o uso de corticóides como não medicamentoso, por meio de terapia olfatória. Nesse processo, orientamos os pacientes a cheirar alguns odores predeterminados, duas vezes ao dia, até o retorno do olfato. Utilizamos, principalmente, substâncias como café, cravo, mel, creme dental”, pontua.  

Ao perceber qualquer diminuição ou alteração do olfato, na ausência de obstrução nasal, é importante entrar logo em contato com um médico. “Antes de qualquer coisa, a função do olfato é garantir nossa segurança, impedindo, por exemplo, que a gente permaneça num ambiente com vazamento de gás ou coma um alimento estragado”, alerta Neto. 

Além dos sentidos
Médico epidemiologista e intensivista da Universidade de São Paulo (USP) e Instituto de Saúde Global de Barcelona, Otavio Ranzani também chama atenção para o surgimento constante de novas pesquisas e de outras alterações que podem permanecer por mais tempo após a infecção provocada pelo vírus.   

“O que sabemos até agora é que pacientes podem apresentar uma alteração de humor, como ansiedade. Isso também vem associado ao fato da pandemia, que é estressante”, analisa. Ranzani esclarece que existem relatos de piora da memória, porém, isso está em análise, assim como queixas raras de alteração na visão.

“Teremos que diferenciar o quanto isso é da infecção provocada pelo vírus, da inflamação e/ou da pandemia em si”.    

Avanços
Estudos nacionais e internacionais, já começam  a analisar o problema. A imunologista, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz- Instituto Gonçalo Moniz (Fiocruz Bahia) e da Rede CoVida e professora  da Faculdade de Medicina da Ufba, Viviane Boaventura cita o artigo ‘Desordens olfativas e gustativas na COVID-19: uma revisão sistemática’, publicado pelo Jornal Brasileiro de Otorrinolaringologia e ‘Disfunções olfatórias e gustativas como apresentação clínica das formas leve a moderada da doença coronavírus (COVID-19): um estudo multicêntrico europeu’, da Eur Arch Oto-Rhino-Laryngol.  

“Há muitos estudos no mundo, incluindo parosmia na pós-covid. Entretanto, são pesquisas que ainda estão na fase inicial. Um deles sugere que cerca de 15% dos pacientes passam por esse fenômeno. O estudo europeu encontrou ainda uma frequência de alteração de olfato em de 85% a 88% durante a infecção”, comenta a pesquisadora que cita mais duas publicações feitas no inicio do ano. 

Uma, trata de um estudo feito no Hospital Jin Yin-tan (Wuhan, China), que avaliou as consequências a longo prazo para a saúde de pacientes com covid-19. O artigo ‘Consequências de 6 meses de covid-19 em pacientes que receberam alta hospitalar: um estudo de corte’ apontou que seis meses após a infecção aguda, os sobreviventes apresentavam problemas de fadiga ou fraqueza muscular, dificuldades para dormir e ansiedade ou depressão. 
 
Outro artigo,  produzido em Israel e publicado no em fevereiro, concluiu que após o mesmo tempo, 46%  dos pacientes apresentavam pelo menos um sintoma não resolvido.  Fadiga e  alterações de cheiro e paladar eram os mais comuns, com base na pesquisa intitulada ‘Início, duração e sintomas não resolvidos, incluindo alterações de olfato e paladar, na infecção leve por covid-19: um estudo de corte em pacientes israelenses’.   

Viviane Boaventura é uma das coordenadoras do estudo que vai analisar vários sintomas da covid-19, incluindo alterações de olfato e paladar. Outros pesquisadores do CoVida integram o projeto em andamento. “Participam do estudo 1,5 mil pacientes de Irecê, Fortaleza, Campo Formoso e Lauro de Freitas com suspeita de infecção pelo Sars-CoV-2. Buscamos características clínicas que ajudem na detecção precoce da doença”. 

TIRA-DÚVIDAS

Quais são as queixas sobre odores e sabores ‘estranhos’ mais comuns?  
Quem explica é o presidente da Academia Brasileira de Rinologia e também da Academia Brasileira de Laringologia e VOZ (ABLV), Fabrizio Romano: “Acontece o que chamamos de parosmia – onde os cheiros parecem distorcidos. O mais comum são odores de queimado, ferrugem, gasolina”.  

Tem tratamento? 
Sim. “Tanto medicamentoso como a terapia olfatória. Quanto antes o tratamento se inicia, maiores as chances de recuperação”, acrescenta Romano.  

Qual o efeito da covid-19 nesses sentidos?  
O vírus não ataca diretamente as fibras nervosas responsáveis pelo olfato. Ele age nas células de sustentação desses neurônios, que recebem os odores e transmitem a informação ao cérebro. É o que esclarece ainda o otorrinaringologista Miguel Leal Andrade Neto. “ Essa inflamação pode afetar as células nervosas, e com isso, necessitar de um maior tempo de recuperação”. 

As pessoas perdem o apetite?  
É comum que o apetite se altere, como pontua a imunologista, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz – Instituto Gonçalo Moniz (Fiocruz Bahia), da Rede CoVida e professora da Faculdade de Medicina da Ufba, Viviane Boaventura. “Alguns indivíduos passam a comer menos porque não sentem o cheiro e outros podem até comer mais na tentativa de sentir o sabor”. 

Há grupos de apoio para quem tem distorções ou perda de olfato? 
Um desses grupos é o AbScent, instituição voltada para pessoas com perda do olfato, que criou, com ajuda da Sociedade Britânica de Rinologia (BRS), um guia de informações sobre a covid-19. O site é abscent.org. A entidade tem, atualmente, 16 mil mebros só no Facebook com uma adesão de quase novas 2 mil pessoas por dia. A AbScent conta com materiais traduzidos para o português, mas que também pode ser acessado com o suporte do Google Tradutor. Um dos treinamentos recomendados pela diretora executiva da organização, Sarah Oakley, é o seguinte: “cheire ativamente os mesmos quatro aromas todos os dias, gastando cerca de 20 segundos em cada perfume, realmente se concentrado no que está fazendo. O estudo original do professor Thomas Hummel – especialista do Centro de Olfato e Paladar da Universidade de Dresden, na Alemanha – usou aromas de rosa, limão, cravo e eucalipto”. 

Quais os principais riscos da parosmia?
A pneumologista e responsável pelo Ambulatório Pós-Covid do Hospital Universitário Professor Edgard Santos (Hupes), Margarida Neves, indica alguns desses perigos, além dos impactos na qualidade de vida. Com a capacidade olfativa distorcida esse paciente pode não conseguir identificar pelo cheiro um vazamento de gás, ou de um alimento estragado, por exemplo. “O olfato e o paladar se complementam. Se perde também o prazer de comer, já que a digestão dos alimentos começa com o cheiro e a produção de enzimas salivares”.    

Como é feito o atendimento no HUPES? 
Qualquer paciente que teve covid e mantem um sintoma residual pode procurar o setor de Pneumologia no Ambulatório Professor Magalhães Neto (Rua Padre Feijó, Canela) e agendar uma consulta. “Priorizamos os pacientes que tenham sido entubados e passaram por ventilação mecânica, pela urgência em avaliar a necessidade de algum tratamento, mas todos serão atendidos”, garante Margarida Neves. Em Salvador tem também, o Ambulatório Pós-Covid do Hospital Especializado Octávio Mangabeira (HEOM), em Pau Miúdo. Marcações pelos telefones (71) 3117-1677 ou (71) 3117-1761 e no e-mail heom.cpc@saude.ba.gov.br.