Saúde

Parentes de vítimas da Covid-19 em Wuhan afirmam ser silenciados durante visita da OMS


Cidade na China foi o primeiro epicentro da doença, há um ano. Moradores dizem que autoridades tentam censurar familiares dos mortos pelo coronavírus nas redes sociais em meio à chegada de especialistas médicos internacionais. Pedestres caminham em Wuhan, na China, em frente ao mercado de animais fechado onde teria começado o surto de Covid-19; foto de 23 de janeiro de 2021
Hector Retamal/AFP
Os familiares das vítimas do coronavírus em Wuhan afirmaram, nesta quarta-feira (27), que as autoridades da China eliminaram seu grupo nas redes sociais e estão pressionando-os para que mantenham silêncio enquanto uma equipe da Organização Mundial da Saúde (OMS) está na cidade para investigar as origens da pandemia.
Dezenas de familiares se uniram na internet para pedir responsabilidades às autoridades de Wuhan, as quais culpam pela má gestão do surto que assolou a cidade há um ano. Seus esforços foram frustrados até agora pela obstrução oficial, pela vigilância dos grupos nas redes sociais e pela intimidação, denunciam os familiares.
Mas a pressão se intensificou nos últimos dias, aparentemente para silenciar qualquer crítica durante a delicada investigação da OMS.
Um grupo na rede social WeChat, usado por entre 80 e 100 familiares no último ano, foi removido repentinamente e sem explicação alguma há cerca de dez dias, disse Zhang Hai, membro do grupo e muito crítico da gestão da epidemia.
“Isso mostra que [as autoridades chinesas] estão muito nervosas. Têm medo de que essas famílias entrem em contato com os especialistas da OMS”, disse Zhang, de 51 anos, cujo pai morreu no início da pandemia por suspeitas de covid-19.
Os especialistas da OMS chegaram em Wuhan em 14 de janeiro e devem terminar sua quarentena de 14 dias nesta quinta-feira.
“Quando a OMS chegou a Wuhan, [as autoridades] eliminaram [o grupo] à força. Como resultado, perdemos o contato com muitos membros”, acrescentou Zhang.
Outros familiares confirmaram a eliminação do grupo. O WeChat pertence ao gigante digital chinês Tencent. Na China, as plataformas mais populares retiram frequentemente os conteúdos considerados censuráveis pelo governo.
Desconfiança nos dados
Os familiares acusam os governos provinciais de Wuhan e Hubei de permitir que a Covid-19 se descontrolasse, primeiro para tentar ocultar o surto quando surgiu pela primeira vez na cidade, em dezembro de 2019, e depois para não alarmar o público.
Segundo os dados oficiais chineses, a Covid-19 matou quase 3.900 pessoas em Wuhan, a grande maioria dos 4.636 mortos registrados na China. Muitos familiares desconfiam desses números devido à falta de testes nos primeiros dias do surto.
Até agora, a Covid-19 matou mais dois milhões de pessoas em todo o mundo.
Embora a China tenha controlado amplamente a pandemia em seu território, também frustrou as tentativas independentes de rastrear suas origens. Além disso, deu a entender, sem provas, que a pandemia surgiu em outro lugar.
Uma equipe de especialistas da OMS conseguiu finalmente entrar em Wuhan há duas semanas. Sua investigação sobre a origem do vírus, muito vigiada, começará na quinta-feira, sob estritas medidas de segurança.
O governo do Partido Comunista oculta qualquer assunto que passe uma imagem ruim de seu governo e os primeiros dias do vírus continuam sendo uma questão muito delicada.
Vários familiares de Wuhan tentaram apresentar denúncias para pedir indenizações e condenar os funcionários, mas dizem que os tribunais se recusaram a aceitá-las.
O governo de Wuhan não respondeu às perguntas da AFP sobre as famílias e suas denúncias.
Zhang pediu aos especialistas da OMS que se reúnam “com coragem” com os familiares, embora reconheça que esse encontro é muito pouco provável.