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Partido de oposição de esquerda vence eleições em Kosovo


Governo vencedor nas urnas será o terceiro desde o início da pandemias há um ano. Apoiadores do partido esquerdista comemoram em Pristina, capital do Kosovo, neste domingo
AP Photo/ Visar Kryeziu
Um partido reformista de esquerda venceu as eleições parlamentares de Kosovo neste domingo (14) contra o governo dos ex-comandantes rebeldes, de acordo com resultados parciais da comissão eleitoral central.
A antiga província de Belgrado, que continua lutando para ter reconhecimento pleno em nível internacional, realizou suas quintas eleições antecipadas desde a proclamação da independência em 2008, apesar de sofrer com a pandemia de Covid-19.
O governo vencedor nas urnas será o terceiro desde o início da pandemias há um ano. Isso agravou as dificuldades econômicas deste território pobre, onde a Covid-19 causou mais de 1.500 mortes e onde a vacinação não parece próxima.
A sede de mudança é personificada para muitos pelo Vetevendosje (VV), que significa “autodeterminação”, o movimento reformista de esquerda de Albin Kurti na guerra contra a corrupção e que teria obtido cerca de 48% dos votos, com 80% dos votos apurados, segundo resultados parciais anunciados pela comissão eleitoral central.
O PDK, estabelecido pelos ex-comandantes rebeldes, obteve cerca de 17% dos votos, enquanto o LDK, de centro direita, somou cerca de 13% dos votos.
Nas ruas nevadas de Pristina, uma multidão de apoiadores de Kurti enfrentou o frio para celebrar a vitória em um concerto de buzina de carro, fogos de artifício e agitando a bandeira albanesa.
“É uma onda eleitoral. Para um partido que começou na rua, o Vetevendosje obteve um resultado extraordinário”, comentou o analista político Vehbi Kajtazi.
“Mudança”
Os apoiadores de Kurti acusam os ex-guerrilheiros de captar recursos do Estado e de clientelismo neste território de 1,8 milhão de habitantes, onde o salário médio ronda os 500 euros (US$ 606). Como o índice de desemprego é de 50%, os jovens optam por emigrar, principalmente para a Suíça ou Alemanha.
“As pessoas esperam por mudança, esperam que os problemas que nos envenenam acabem, como a corrupção e o nepotismo”, declarou à AFP Sadik Kelemendi, médico, antes de votar. “Também temos que nos dedicar à luta” contra o vírus, completou.
A antiga rebelião chegou às eleições com uma forte desvantagem: a ausência de várias de suas grandes figuras, como o ex-presidente Hashim Thaci – do PDK – acusado em novembro de crimes de guerra pela Justiça internacional.
As chances do VV aumentaram com o apoio da presidente interina Vjosa Osmani, de 38 anos, símbolo de uma classe política de nova geração que abandonou a LDK de centro-direita do primeiro-ministro atual Avdullah Hoti.
O VV já liderou as duas últimas eleições legislativas, mas ficou separado por coalizões entre outros partidos.
Em 2020, o governo de Albin Kurti durou cerca de cinquenta dias antes de cair. Desta vez, Kurti espera constituir uma maioria de governo com alianças com partidas que representam as minorias, que contam com 20 assentos dos 120 do Parlamento.
Diálogo com Belgrado

Nem todos apoiam o programa do movimento, que no passado participou de manifestações violentas, mas os kosovares estão fartos e querem rostos novos, estimam os analistas.
Kurti é acusado por seus adversários de perseguir objetivos “ditatoriais” e de representar uma ameaça à relação privilegiada entre Kosovo e os Estados Unidos.
Especialistas em doenças infecciosas criticam seu partido por ter contornado a proibição de reuniões organizando marchas, apesar do aumento das infecções por coronavírus na região.
As autoridades eleitorais proibiram Kurti de comparecer pessoalmente devido a uma condenação por atirar gás lacrimogêneo na Assembleia.
O novo governo terá de continuar seu difícil diálogo com a Sérvia para normalizar as relações com Belgrado, que ainda se recusa a reconhecer a independência de sua antiga província.
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