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Política & Economia: Infraestrutura ruim provoca desemprego e pobreza

O baixo desenvolvimento econômico, com desempenho e pobreza historicamente altos, passa por deficiências na área de infraestrutura, acredita Paulo Villa, diretor-executivo da Associação dos Usuários de Portos da Bahia (Usuport). Segundo ele, com melhores condições para a movimentação da produção de empresas baianas, haveria mais oportunidades e consequentemente mais distribuição de riquezas. 

A Usuport, primeira associação brasileira criada para representar donos de cargas, vem travando batalhas desde a sua criação em 2004 na defesa da melhoria das condições para as operações logísticas na Bahia. Paulo Villa foi o convidado do programa Política & Economia, veiculado no Instagram do CORREIO (@correio24horas), apresentado pelo jornalista Donaldson Gomes. 

“Houve um crescimento na oferta de portos, rodovias e uma melhora também em ferrovias, mas o Brasil ainda é muito pobre em infraestrutura de transporte de cargas, tem um longo caminho para melhorar”, avalia. Para ele, isso é fruto de um descaso em relação ao assunto nas últimas três décadas, principalmente. “Este é um processo que aconteceu em todo o Brasil, mas eu diria tristemente que a Bahia ficou mais de lado ainda. Ficou esquecida, estagnada nesta área”, ressalta. 

Tanto a recepção de insumos quando o escoamento de produção fazem parte das atividades empresariais. “Toda empresa, independente do setor, foca muito no seu core business (atividade principal) e o Brasil tem as melhores práticas neste sentido. O Brasil tem ótimas práticas industriais, tem sido competitivo na agricultura, no comércio é muito bom, mas os problemas se dão do portão da empresa para fora”, exemplifica. 

“Quem produz aqui se depara com portos ineficientes, com operações caras, problemas regulatórios muitas vezes graves, estradas congestionadas. Uma via acima da sua capacidade provoca um maior número de acidentes, seguros são mais altos e isso traz uma série de limitações”, pondera. 

Para o diretor da Usuport, a qualidade do transporte ferroviário no Brasil hoje é elevada quando se tratam de grandes cargas, como minério e grãos. Entretanto ainda tem um longo caminho para evoluir quando se tratam das cargas gerais, basicamente o transporte ferroviário em contêineres, o processo ainda é muito incipiente, acredita. “Tem muita coisa para ser feita e a logística é o que acaba por dar competitividade às empresas”, destaca. 

Paulo Villa cita como exemplo a produção de frutas no Vale do São Francisco. Segundo ele, em muitos casos, o lucro do produtor rural fica na logística. “Existem muitas situações em que o ganho do produtor fica numa das etapas do transporte e no final das contas ele acaba trocando dinheiro”, diz. 

Ele cita um relatório do Fórum Econômico Mundial que coloca o país em uma posição sofrível em relação à infraestrutura de transportes. “O único modal em que nos damos relativamente bem é o aéreo”, diz. Para ele, o outro lado da questão é que todas essas deficiências indicam, por outro lado, muitas oportunidades de negócios, “há muito para fazer”. 

Ferrovias
O diretor-executivo da Usuport acredita que a vitória da Bamin no leilão para a concessão da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) foi o melhor resultado que se poderia esperar para a Bahia. “É uma empresa baiana, associada da Usuport, que vai explorar a ferrovia e uma mina de minério de ferro também aqui na Bahia”, diz. Ele considera importante para o estado que ele se torne capaz de produzir minério de ferro. “A ferrovia fará a Bahia vai se tornar, ao lado de Minas Gerais e o Pará, um dos estados produtores de minério de ferro. É algo novo para nós e vai acontecer em um grande volume”, projeta.  

Entretanto, Villa acredita que num primeiro momento, será uma ferrovia de um minério, de uma carga e de um cliente. “A partir do médio prazo é que deveremos ter novas cargas e outros clientes”, ressalta. 

Um segundo aspecto positivo destacado por Paulo Villa está na ligação entre o Centro-Oeste e o litoral, a chamada Oeste-Leste. “No passado, foi servido um grande banquete no país, mas apenas para o Sudeste, entre Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, quando aconteceu a industrialização do país. A Bahia participou apenas fornecendo mão de obra”, diz.  “Agora temos um novo banquete acontecendo no Centro-Oeste, com o boom do agronegócio e o país respondendo com a produção que alimenta mais de 1 bilhão de pessoas no mundo. Isso nos dá uma responsabilidade muito grande sob o ponto de vista logístico e é aí que entra a Fiol”, pondera. 

Apesar de sua importância, Paulo Villa acredita que sozinha a Fiol não será suficiente para resolver os problemas da Bahia em termos de estrutura férrea. “A Fiol precisa fazer parte de uma estrutura logística, de um sistema. O cruzamento dela com a Ferrovia Norte-Sul e com a Fico (Ferrovia de Integração do Centro-Oeste cria densidade de cargas e oportunidades de negócios”, acredita. 

Ele lembra ainda a necessidade de garantir a recuperação da Ferrovia Centro-Atlântica (FCA) e a sua conexão a este sistema logístico. “Essa ferrovia precisa ser conectada à Fiol e funcionando bem”, acredita. 

A Usuport defende que a o trecho baiano da FCA seja desmembrado do conjunto da ferrovia em uma eventual renovação antecipada da concessão do equipamento para a VLI. “No decorrer dos anos, a FCA tirou valor da estrutura logística da Bahia, no lugar de agregar valor”, diz. Segundo Paulo Villa, foram desativados serviços e trechos que eram operados no passado. 

Para o executivo da Usuport, existe espaço para investimentos novos e mais arrojados nos portos públicos da Bahia. “Nós temos um potencial de cargas que é fabuloso, mas se nós não ampliarmos os nossos portos, as nossas indústrias irão enfraquecer”, acredita.