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Por que é tão importante olhar a pandemia sob a lente do microscópio?

(Foto: Fernando Vivas/GOVBA)

No imaginário de filmes ou contos literários, a sobrevivência da raça humana é sempre desafiada por gorilas gigantes, demônios apocalípticos, monstros marinhos ou alienígenas com naves colossais. Na realidade atual, o tamanho não é documento. O coronavírus, atual vilão da humanidade, só chega a 140 nanômetros (nm) de diâmetro, o que dá 0,00014 milímetros. Porém, é capaz de matar 2,5 milhões de pessoas no planeta. 

Qual a importância de saber o tamanho da Sars-CoV-2? Na ciência, tudo. Para o cidadão comum, o diâmetro define, por exemplo, qual a melhor máscara a ser usada. Chegaremos lá. Primeiro, é preciso enxergar o vírus e como ele viaja entre nós. Para se ter uma ideia do tamanho do perigo, é impossível vê-lo em microscópio convencionais. Só conhecemos o coronavírus por fotos. 

“Ele é muito pequeno. Precisamos de um microscópio muito especial, o eletrônico. Ele vai fazer imagens de uma célula infectada ou onde o vírus estiver presente. É uma foto. Porém, para confirmar que se trata do coronavírus, precisamos ver sua estrutura. Ele é como uma bola de futebol com vários pirulitos furando a bola. dentro, como uma câmara de ar, estaria o material genético”, explica coordenador do Laboratório de Virologia da Ufba, Gúbio Soares. O cientista baiano foi responsável pela descoberta do Zika vírus (45 nm).

Para se ter uma ideia do tamanho deste vírus, o matemático britânico, Kit Yates, da Bath University, calculou que existem cerca de dois quintilhões de partículas Sars-CoV-2 no mundo. Muito, né? Depende. Todos estes coronavírus não encheriam uma latinha de cerveja de 350 ml. “Saber o tamanho do vírus é muito importante. É possível, por exemplo, saber como combatê-lo através do processo de filtração. A máscara que usamos é importante justamente para evitar que o vírus nos contamine por meio de partículas”, completa Gúbio. 

Viagem até nós 
Chegamos ao ponto.  Imagine a máscara utilizada diariamente para evitar a contaminação do coronavírus. As microfibras da costura deixam brechas entre elas, como se fossem pequenas janelas abertas. São justamente nestas fissuras que o coronavírus tentará passar. Contudo, o Sars-CoV-2 não tem autonomia para viajar sozinho. Se fosse possível, talvez nenhuma máscara servisse. Não é o caso. O coronavírus pega carona com partículas de saliva que soltamos quando espirramos ou falamos, por exemplo. O papel da máscara é justamente anular estas partículas. 

“O vírus viaja envelopado dentro de gotículas bem pequenas, em aerossol, salivas, secreções ou fluidos respiratórios que saem de nós. As mais pesadas caem no chão e as mais leves ficam em suspensão no ar durante minutos e até horas, podendo ser inaladas por outras pessoas. As que ficam em suspensão preocupam mais”, disse ao CORREIO o doutor em engenharia biomédica pela USP e pesquisador da Universidade de Vermont, nos Estados Unidos, Vitor Mori.

A eficácia de cada máscara é medida pelo poder de filtração na menor partícula. A N-95 ou PFF2 são as mais confiáveis. Elas possuem 94% de eficácia nas gotículas com 0.3 micrômetros (µm) de diâmetro, carregados de vírus.  Mesmo assim, as máscaras de pano também são importantes. “Rola muita notícia falsa, dizendo que não adianta usar máscara de pano. Adianta, sim. É preciso escolher malhas com fibras mais fechadas e que se ajuste melhor no encaixe do rosto”, pondera Vitor. 

Se duas pessoas usam máscaras, a chance de o vírus contaminar alguém diminui, pois as gotículas ficam presas nas proteções, como peixe na rede. Justamente por isso não é recomendado tecidos como tricô ou máscaras acrílicas, pois não vedam o local todo. Segundo Vitor, máscaras que prometem matar o vírus pode até funcionar, mas não é o X da questão. “O risco maior não é a máscara contaminada, mas o poder de filtragem. A máscara ainda é a melhor maneira de salvar vidas”, completa.

Independentemente do tamanho do inimigo, ficção e realidade concordam em uma coisa: para salvar o mundo, nada como heróis mascarados.