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Pouca gente, muita devoção: fiéis homenageiam São Jorge em celebração com presença limitada

De 1 a 50. Essa era a contagem que os voluntários da Igreja São Francisco, no Pelourinho, precisaram fazer para limitar o número de fiéis que acompanharam a missa de celebração a São Jorge, que contou com 50 pessoas – definidas por ordem de chegada – distribuídas, com distanciamento, pelos 32 bancos do local. Contagem incomum para quem controlava a entrada e, ao longo dos últimos anos, se acostumou a perder a conta de quantos fiéis passam pela Igreja durante todo dia 23 de abril. De acordo com informações da Arquidiocese de Salvador, mais de mil pessoas, de outros bairros de Salvador, da Bahia e de todo Brasil, costumam ser presença certa na festa dedicada ao padroeiro da Capadócia. 

Fiéis que fazem da missa, com muito mais volume, algo parecido com que foi visto hoje: um momento de pura devoção. Desde a chegada da imagem do santo, que percorreu sobre um carro todo o Centro Histórico, passando, em alvorada, por pontos como a Baixa dos Sapateiros, a Praça Castro Alves, a Piedade e o  Campo Grande, o que não faltou foi emoção. Entre lágrimas, preces e aplausos, São Pedro foi recebido com comemoração e mais cercado de câmeras do que nunca. É que muitos fiéis quiseram mostrar a celebração ao vivo para aqueles que não puderam estar presentes.

Devoção e entrega
Um deles foi Roberval Paraíso, 45, funcionário público, que, com o celular em mãos, tentava mostrar aos amigos um pouco do que foi a celebração. Para ele, o número de presentes limitado era triste, mas aumentava a sensação de honra por poder participar do momento. “Costumo aparecer aqui sempre, todo dia 23 estou aqui pra acompanhar a festividade. Tá tudo muito diferente, meus amigos não puderam vir por causa da limitação. Deixa a gente triste por isso, mas me sinto com um privilégio imenso, grato pela oportunidade. Muito porque sei que muita gente queria estar aqui, mas, infelizmente, não pôde”, afirma.

Roberval fez relatório da celebração para amigos que não puderam comparecer (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

O artista Jorge Melo, 71, foi outro que se sentiu privilegiado em conseguir marcar presença entre os 50 sortudos. Batizado com o nome do santo pela mãe, ele mantém a devoção incentivada pela família quando criança até hoje. “Eu venho hoje, penando para subir a ladeira com a cadeira de rodas, em homenagem a São Jorge porque ele é o santo batalhador, guerreiro. Depois de Jesus Cristo, é o que eu tenho mais carinho. Um santo que não só nos defende do dragão conhecido, mas dos dragões da vida como, por exemplo, esse coronavírus do qual ele também nos protege”, declara.

Jorge subiu ladeira de pedras com cadeira de rodas só para não perder celebração (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Por lá, teve até gente que atravessou o país para ver a celebração ao santo. A professora aposentada Josina do Nascimento, 76, é de Taubaté e compareceu à celebração em Salvador pela quarta vez. Para ela, foi difícil segurar a emoção durante a missa.  “Vim para comparecer e assistir as festividades que são muito bonitas e emocionantes. Tenho certeza de que, sem pandemia, tudo seria ainda melhor. Por isso, ainda vou reforçar para o nosso santo protetor o pedido para que ele nos livre dessa pandemia e a limitação de pessoas deixe de existir com segurança”, fala. 

Josina e a filha sairam Taubaté para participar da celebração (Foto: Nara Gentil/CORREIO)

Limitação necessária
A missa foi celebrada pelo frei Juscelino da Silva Pinto, que lamentou a necessidade de fazer com que o lugar, que contava com mais de mil pessoas presentes, contasse com apenas 50 fiéis, mas disse que a ação foi necessária para conduzir o evento com segurança para todos. “É triste, precisamos tomar todas as medidas cabíveis para continuar com as celebrações sem colocar ninguém em risco e, felizmente, contamos com a compreensão dos fiéis. Mas, mesmo em meio a tristeza, é necessário manter a esperança que, muito em breve, poderemos voltar a celebrar sem essas limitações”, diz.

O frei fez questão de dizer ainda que a celebração do santo guerreiro é ainda mais importante num momento em que todos precisam ter força. “Que possamos viver intensamente a celebração de São Jorge é também compreender a lição que ele nos ensina para defender nossa fé, nossa missão e nosso trabalho, nos aproximando do caminho que leva até Deus”, conclui.

*Sob supervisão da subchefe de reportagem Monique Lôbo