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‘Queria infartar para ver se assim nos dariam atenção’, diz mãe de criança morta em ação policial no Vale das Pedrinhas

Ryan Andrew e Micael Menezes foram mortos a tiros em crimes que seguem sem respostas

“Eles tiraram um pedaço de mim e estou morrendo aos poucos”. A voz embargada e rouca de Joselita Santos Menezes entrega uma dor que ela faz questão de não esconder. Num domingo junino que era para ser como qualquer outro, seu filho Micael Menezes, 12 anos, saiu para empinar arraia no Vale das Pedrinhas. Depois, saiu pra comer um cachorro quente antes de voltar para casa quando foi atingido por tiros e morreu. Quase 10 meses após o crime, nenhuma explicação e nesta segunda-feira (19), familiares e militantes da organização política ‘Reaja ou será morta, reaja ou será morto’ foram até a governadoria para protestar. 

Cerca de 100 pessoas participaram do ato. Além de pedir esclarecimentos sobre a morte de Micael, os manifestantes também cobraram respostas sobre a morte de outra criança no mesmo bairro: Ryan Andrew Pereira Tourinho Nascimento, de 9 anos, foi morto durante uma operação policial no dia 26 de março. 

Segundo família, Micael saiu para empinar pipa e correu após policiais chegarem atirando
(Foto: Divulgação)

Em ambos os casos, as famílias acusam a polícia de atirar nos garotos. No caso de Micael, a PM alega que encontrou o menino caído após confronto com homens armados. A família nega e diz que a morte dele aconteceu tentando se proteger dos militares, que chegaram atirando.

“O menino saía domingo de manhã e morreu empinando arraia, brincando na rua. De 17h30 para 18h, depois de comer um cachorro quente. Será que não viu que era uma criança? Atiraram de fuzil no peito de meu filho. Eu estou morrendo pouco a pouco. Minha garganta está rouca. Eu passei mal, fiquei com medo de infartar. Eu queria infartar para eles verem”, diz a mãe da vítima.

“Atiraram de fuzil no peito de meu filho. Eu estou morrendo pouco a pouco. Minha garganta está rouca. Eu passei mal, fiquei com medo de infartar. Eu queria infartar para eles verem, será que assim nos dariam atenção?”, Joselita Santos Menezes – mãe de Micael

Militante da organização política ‘Reaja ou será morta, reaja ou será morto’, Silvana Santos participou do ato e aponta que em 16 anos de luta já perdeu a conta de quantas crianças e adolescentes negros e de periferia foram mortos em ações policiais. A maioria dos manifestantes presentes no ato são moradores do complexo do Nordeste de Amaralina. 

“Na nossa perspectiva o ato teve um resultado positivo pelo fato de termos reunidos muitos moradores da comunidade, e pessoas da sociedade civil no geral, além dos familiares terem sido  ouvidos pelo secretário da SERIN, Genival Dantas, que se comprometeu a articular com outras secretarias para dar resultados efetivos  a respeito dos dois casos”, afirmou.

Segundo Silvana, o ato foi feito na governadoria pelo fato das execuções terem sido feitas pela PM e “como seu maior representante é o governador, ele é o responsável direto, por isso o ato na governadoria”.

A organização afirma que exige a imediata das guarnições envolvidos nas execuções de Micael e Ryan do Nordestede Amaralina, que ainda estão presentes na comunidade e representam uma ameaça cotidiana aos familiares das vítimas e uma designação de delegados especiais para investigar os dois casos.

Crimes que tiraram a vida dos meninos Micael e Ryan seguem sem resposta (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Procurada, a PM afirmou que os questionamentos do CORREIO serão encaminhados para a Corregedoria da PM e responderá às perguntas assim que obtiver retorno. O veículo questionou quem são as guarnições e policiais investigados no caso. Também foi perguntando se os militares continuam nas ruas e se alguma sanção foi aplicada.

O CORREIO também buscou o Ministério Público do Estado da Bahia, que não respondeu às perguntas até o fechamento desta reportagem.