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Racismo na infância: debate ganha fôlego após caso relatado no BBB

A cantora Pocah narrou no Big Brother Brasil que a filha rejeitou o próprio cabelo quando tinha 3 anos

“Meu cabelo é feio”. Foi com apenas 3 anos de idade que a filha da cantora e BBB Pocah se queixou do cabelo crespo. A funkeira narrou o episódio em rede nacional depois do preconceito vivido pelo colega de Big Brother Brasil, João Luiz, que teve seu cabelo black power comparado à peruca de um homem das cavernas. Assim como a pequena Vitória, hoje com 5 anos, são muitos os que sofrem com o racismo na infância. 
 
Mas ao contrário do universo adulto, muitas vezes os episódios são silenciados porque acontecem no ambiente escolar, onde são confundidos com bullying. “Você não pode ser princesa porque você não tem cabelo liso”, ou “só brinco com você se for a empregada” são duas das frases relatadas à defensora pública estadual Gisele Aguiar, em seu trabalho. 
 
Coordenadora da Especializada de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente da Defensoria da Bahia, Gisele explica que boa parte das situações de racismo vivenciadas pelas crianças acontecem “naquela coisa da ‘brincadeira’”. Daí vem a dificuldade de reunir dados que consigam mensurar a realidade, já que as denúncias não são feitas. Mas não por falta de casos. 
 
“Muitas vezes há uma confusão entre bullying e racismo e as crianças não conseguem ter a percepção de que estão sendo vítimas de práticas racistas. Além disso, em muitos casos os pais não têm coragem de denunciar”, acrescenta a também defensora pública estadual Laissa Rocha, que atua junto com Gisele na Especializada de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente. 

A pequena Vitória disse à mãe, a cantora e BBB Pocah, que achava seu cabelo feio e que queria ter o cabelo liso igual ao dela
(Foto: Reprodução Instagram)

Pensando em ampliar o debate, já que “o problema não está nas crianças, mas nos pais, porque elas reproduzem o que veem em casa”, como pontua Gisele, foi criada a campanha Ação Cidadã. Além do selo Escola Antirracista, que está sendo criado junto à prefeitura de Salvador, uma série de atividades marcam o projeto lançado em março que seguirá de forma perene a partir dos próximos meses.

Debate de todos 
Debates com as escolas estaduais, municipais e particulares, e o segundo volume do livro de minicontos ‘Nossa Querida Bia: enfrentamento ao racismo desde a infância’ estão entre as próximas atividades da Ação Cidadã criada por Laissa, Gisele e Eva Rodrigues. A ampliação do canal com os pais e responsáveis com um e-mail para denúncias (infanciasemracismo@defensoria.ba.gov.br) também faz parte do projeto. 
 
“A discussão do racismo deve ser de todos”, defende Laissa, mãe de Ana Beatriz, 6, que inspirou o livro Nossa Querida Bia. “É preciso que todos se envolvam e quando nos referimos à importância de trabalhar as crianças não-negras é nesse intuito. A gente trabalha na reparação, quando a prática do racismo já aconteceu, mas a ideia é chegar antes, educar para que não aconteça”, explica. 
 
O livro mostra que cada tipo de cabelo é importante, aborda o tema do racismo religioso e fala sobre respeito. Tudo isso usando o lúdico, enaltecendo a capacidade de sonhar e valorizando a ancestralidade negra, com reis e rainhas das civilizações africanas. “Representatividade para que as crianças tenham exemplos positivos. Essa é a história de uma menina negra consciente de seu pertencimento racial”, comenta Laissa. 

Diretor artístico com forte atuação no teatro nacional, o baiano Fred Soares, 42, diz que a pedagogia afrocentrada da Escolinha Maria Felipa, onde sua filha Lis Bella, 4, estuda foi fundamental para o fortalecimento da autoestima da pequena. “Ela não sofre com isso, adora o cabelo dela. Todo dia no banho é uma preocupação: ‘Meus cachinhos! Quero cachinhos! (risos). É muito bem resolvida”, conta, orgulhoso. 

O diretor artístico Fred Soares e a filha Lis Bella: pedagogia afrocentrada ajuda no enfrentamento do preconceito
(Foto: Acervo pessoal)

Representatividade 
Fruto do casamento com o dramaturgo, cenógrafo e diretor Luiz Antônio Sena Jr., 36, Lis “entende a igualdade entre as crianças, sejam elas negras e não-negras”, acrescenta Fred. As coleguinhas estão “no mesmo lugar de carinho e de afeto” e esse resultado, em sua opinião, só foi conquistado com a ajuda da pedagogia adotada pela da escola.

“Além de ser negra, tem a questão de ser filha de uma relação homoafetiva, o que só potencializaria esse racismo, esse preconceito. Então a gente queria dar para ela mais segurança para enfrentar qualquer tipo de preconceito que pudesse sofrer”, justifica. Isso passa pela pedagogia que valoriza os ancestrais, os mais velhos e as mulheres que lutaram pela igualdade, como Maria Quitéria e a própria Maria Felipa. 

“Eles conseguem trazer a narrativa dessas mulheres que lutaram, batalharam e resistiram para que hoje tivéssemos um campo minimamente positivo para viver. Ela já cresce entendendo que ela tem um lugar um pouco mais confortável na sociedade – que não é o ideal – porque outras pessoas, outras mulheres defenderam os direitos dos negros”, conclui.

Ciente de que as práticas raciais sofridas na infância impactam na autoestima e “na perda da capacidade de sonhar”, Laissa destaca que a participação das escolas é importante. O ideal, defende, é que altere seu projeto político-pedagógico para implementar a Lei 10.630/2003 que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana nas redes públicas e particulares da educação. 
 
Vítima do racismo na infância, o que a fez rejeitar o cabelo e o uso de batom por vergonha da boca, a defensora reforça que as crianças precisam de representatividade. “É sabido que a escola é um dos locais onde, infelizmente, há a reprodução de práticas racistas. Nosso modelo de ensino é essencialmente eurocentrado. Ou você rompe com isso, ou vai perpetuar. Temos bons exemplos, mas há muito a se fazer”, conclui. 

Dicas para os pais 

– Apresente para seus filhos e filhas culturas e pessoas de diferentes raças e etnias. Como? Através de brincadeiras típicas, apresentando a culinária, a arte e a literatura de diferentes povos, por exemplo. 
 
– Compartilhe com seus filhos história de pessoas negras que foram ou são bem sucedida em suas carreiras, que sirvam de inspiração. Representatividade importa. 
 
– Consumir entretenimento negro: assistir filmes e desenhos, ler livros infantis que tenham negros no papel de protagonistas e que retratem pessoas de diferentes grupos raciais e étnicos. 
 
– Explorar o passado para entender melhor o presente. Eventos históricos como as lutas quilombolas, a Revolta dos Malês, o fim do apartheid na África do Sul e o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos são exemplos. 

Dicas para a escola 

– Trazer à tona a história do povo negro no ambiente escola. 
 
– Nas salas de aula, e na escola como um todo, fixar cartazes, faixas, painéis e murais que busquem afirmar a diversidade étnico-racial do Brasil. 
 
– Adotar livros paradidáticos e de literatura infantil com protagonistas negros, além daqueles que mostrem a diversidade racial da população brasileira. 
 
– Oferecer brinquedos e jogos que contribuam para a educação das relações raciais no cotidiano, inclusive, inserir no seu acervo escolar bonecas que contemplem a diversidade racial. 

Se a prática racista já aconteceu 

– Se seu filho ou filha foi discriminado, abrace-o, apoie-o. Mostre-lhe que a diferença entre as pessoas é legal e que cada um pode usufruir de seus direitos igualmente.  
 
– Além de acolher a criança, denuncie o fato nas delegacias especializadas ou preste queixa nas delegacias comuns. Racismo é crime.  
 
– Busque uma rede de proteção para garantir as medidas reparatórias em relação à violência racial sofrida. 
 
– Use os canais disponíveis na Defensoria Pública da Bahia: por e-mail infanciasemracismo@defensoria.ba.gov.br ou por telefone no 129 ou 0800 071 3121. Atendimento de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h. 

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