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Recorde negativo: em janeiro, ocupação hoteleira em Salvador é de apenas 46,32%

Hotel Intercity Salvador foi o que teve maior taxa de ocupação em janeiro

A retomada do turismo em Salvador ainda está sem fôlego. Segundo o levantamento da Federação Baiana de Turismo e Hospitalidade do Estado da Bahia (Fetur), a ocupação hoteleira nos 22 maiores hotéis da cidade foi de 46,32% em janeiro. Isso significa que, para cada 100 leitos de hospedaria ofertados em Salvador, apenas 46 foram ocupados. Essa é a menor média atingida desde 2001, quando o levantamento passou a ser feito. Tradicionalmente, janeiro é o melhor mês para o setor, que chega a atingir mais de 90% de ocupação na rede hoteleira, em condições normais. 

Silvio Pessoa, presidente da Fetur, não tem dúvidas que a pandemia do coronavírus contribuiu para o dado preocupante, mas critica a demora na velocidade de retomada do turismo na cidade. “Enquanto outros estados estão fazendo divulgação dos seus locais turísticos, nós estamos sem promoção e estratégia. Não temos campanhas, marketing. Não estamos tendo nada para atrair esse turista”, critica.  

Ainda para Pessoa, toda essa falta do turista na cidade é algo que afeta não só ao setor em si, como também a diversos mercados da economia baiana que interagem com o turista. “Tem o mercado informal, de transporte, alimentício. O turismo representa 20% do PIB de Salvador”, afirma.  

Atualmente, Salvador é o terceiro maior parque hoteleiro entre as capitais brasileiras, perdendo apenas para Rio de Janeiro e São Paulo. No total, são 410 hotéis com cerca de 40 mil leitos de hospedagem. “Nesse período de pandemia, perdemos 60 mil postos de trabalho em bares e restaurantes e 20 mil na rede de hotelaria. São vagas que não serão recuperadas tão cedo”, expõe Silvio Pessoa, que ainda estima que 30% dos bares e até 10% dos hotéis não voltem a funcionar depois da pandemia. 

Dados 
Os 22 hotéis pesquisados pela Fetur ficam localizados em sete regiões diferentes da cidade: Barra-Ondina, Centro-Vitória, Rio Vermelho, Tancredo Neves, Pituba, Itapuã-Stella Maris e Paralela. Desses, apenas duas regiões, longes geograficamente, tiveram ocupação maiores do que 50%: Itapuã-Stella Maris (53,62%) e Barra-Ondina (50,03%). Já as regiões da Pituba e Rio Vermelho não chegam a atingir 40% de ocupação com os seus 33,75% e 39,85%, respectivamente.  

Para o presidente da Fetur, isso acontece, pois os hotéis localizados nesses dois últimos bairros são mais executivos, com perfil voltado ao turismo de negócios ou eventos, que ainda não foi retomado. Já os da Barra, Ondina, Itapuã e Stella Maris tem o perfil do turismo de lazer, que é o mais procurado nessa pandemia. “O turismo de negócio não está sendo feito, pois as reuniões agora são via zoom e plataformas digitais. Temos também o Centro de Convenções, que está fechado, sem eventos”, lamenta.  

Desses 22 grandes hotéis, dois ainda não voltaram a funcionar e sequer confirmaram retorno. São o Hotel Marazul e o Novohotel Rio Vermelho, esse último que trabalha com a possibilidade de retomo em março de 2021, mas sem confirmação de que isso possa mesmo acontecer, segundo a Fetur. Dos hotéis pesquisados, o Hotel Conect Smart, no Caminho das Árvores, com 18,75% de ocupação, e o Wish Hotel da Bahia, no Campo Grande, com 26,61% de ocupação são os que menos receberam turistas proporcionalmente à capacidade 

Já os que possuem mais ocupação são o Intercity Premium, localizado na Avenida Tancredo Neves, com 83,94%, e o Monte Pascoal, na Barra, que atingiu 79% em janeiro. Vinicio Bin é gerente regional da Intercity e confessou que o índice atingido surpreendeu a própria rede. “A gente não fechou em nenhum momento da pandemia. Optamos por se adaptar as novas exigências do mercado. Isso deixou o hotel em pleno funcionamento. Por ser uma rede nacional, tem visibilidade no Brasil inteiro, o que acredito que deva ter ajudado também”, diz.  

Para atrair esses clientes, Vinicio contou que o Intercity fez campanhas publicitárias, mas não alterou o preço das tarifas. “Afinal de contas, tivemos aumento de custo para se adaptar às exigências da pandemia. A maioria dos nossos clientes foram pessoas que vieram de carro. Teve muita gente do interior e de Sergipe, num turismo mais regional”, apontou. O CORREIO não conseguiu contato com os outros hotéis citados.  

Ocupação dos 22 maiores hotéis de Salvador, segundo a Fetur (Foto: Divulgação)

Trade 
Presidente da Salvador Destination, Roberto Duran avalia que a ocupação hoteleira obtida em janeiro foi conforme o esperado por causa da pandemia. “Estamos felizes que bateu quase 50%. Atualmente, o que está sendo forte é o turismo de lazer, que realizado em campo ou praia. Nas grandes cidades, até mesmo pela sua conformação, isso não acontece da mesma forma que é nas cidades do interior e outras do litoral”, explicou.  

Já Luciano Lopes, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis da Bahia (ABIH-BA) destacou que esse levantamento não é oficial e que a própria associação fez o outro que deve ser divulgado nos próximos dias. De todo modo, Luciano adiantou que, pelos cálculos da ABIH-BA, a ocupação de hotéis em janeiro foi de 54,54%. “Isso é 70% do que era antes. É muito baixo. Considerando a pandemia, a gente já percebe que o aumento da curva de contaminação reduz a vinda do turista. Por isso, precisamos focar na vacinação das pessoas”, defende.  

Em nota, Fausto Franco, secretário de Turismo do Governo do Estado da Bahia (Setur), disse que o turismo no Estado vem crescendo de forma gradativa: “Saímos de uma média de ocupação de 4%, no auge da pandemia, e fechamos janeiro (2021) na casa dos 50%. Isto demonstra o poder de recuperação deste setor. Entendemos que ainda estamos na pandemia, que devemos nos cercar de todos os cuidados, de todos os protocolos sanitários, tanto os profissionais e empresários do setor, quanto os turistas, mas a união de forças contribuirá para a recuperação do segmento”. 

Fabio Mota, secretário Municipal de Cultura e Turismo (Secult), também recebeu o dado de forma positiva. Ele avalia que Salvador foi uma das capitais menos afetada. “Eu recebi a secretária de Recife e lá só tem 30% de ocupação hoteleira. Ela queria saber o que Salvador tinha feito para não cairmos tanto no Verão. Atribuo às peças publicitárias e vídeos com foco no turismo regional. Pedimos para os próprios baianos conhecessem a cidade nesse momento”, disse.  

Carnaval 
Para a semana de Carnaval, que não vai ter festa nas ruas por causa da pandemia, a expectativa do setor é que a ocupação atinja no máximo 60% e com diárias pela metade do preço do que era estipulado no mesmo período de 2019. “Isso será um prejuízo enorme, O Carnaval é o nosso 13º. Com ele nós passamos nossa baixa estação, que já começa agora em março”, lamentou Silvio Pessoa. 

Mas o reflexo não é só na rede hoteleira. Segundo estimativa da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), autarquia da Secretaria estadual do Planejamento (Seplan), o cancelamento do carnaval de Salvador vai evitar que 1,2 milhão de pessoas circulem nas ruas onde tradicionalmente acontecem os festejos, na capital baiana. R$ 1,7 bilhão advindos dos gastos dos foliões deixarão de circular em Salvador.  

Além disso, cerca de 60 mil trabalhadores ficarão sem opção de desempenhar suas atividades e um montante de R$ 90 milhões de rendimentos, fruto dos trabalhos realizados durante o período de Carnaval, deixará de ser gerado. O desinvestimento público deve ser de R$ 133 milhões. 

Ainda de acordo com a Superintendência, o verão sem festas públicas ou privadas deve impactar nos indicadores de diversos setores no primeiro trimestre de 2021. A redução de arrecadação de ICMS foi projetada em R$ 47,3 milhões nos setores de bebidas, alimentação e alojamento. Também acarretará na queda de 18,2% na taxa de ocupação dos hotéis em Salvador, no período, e redução de 7 mil postos de trabalho diretos, além da queda em torno de 25% da receita nominal do conjunto de atividades características do turismo. 

* Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro.