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Resistência: Revolta dos Malês completa 186 anos mais lembrada do que nunca

Foi num dia 25 de janeiro como hoje que centenas de negros escravizados saíram pelas ruas de Salvador promovendo um dos maiores levantes da história do Brasil escravocrata. 186 anos depois daquele dia de 1835, a Revolta dos Malês segue pouca estudada nas escolas, mas em um momento em que os olhos do mundo se voltam para a luta antirracista, ela se mostra mais lembrada do que nunca. Nos últimos anos, o levante soteropolitano ganhou livros, HQs (História em Quadrinhos), minissérie, filme, podcasts e se tornou tema de debates políticos por homenagens.

A Revolta dos Malês foi um levante de negros escravizados seguidores da religião islâmica, chamados de malês, que se uniram em uma organizada ação que visava libertar os escravos de Salvador e criar uma espécie de nação malê na Bahia. O desejo se intensificou após o aumento dos maus tratos por parte dos senhores de escravos, e a prisão de lideranças religiosas, os alufás e babba almanis. A cadeia pública era onde hoje é a Câmara Municipal de Salvador, local que foi um dos palcos da batalha daquele 25 de janeiro. No entanto, horas antes do momento combinado para a revolta, a ação foi denunciada. Ainda assim, os malês tomaram as ruas de Salvador em um grande embate em busca da liberdade, mas em menor número e com organização prévia do governo, acabaram derrotados.

Levante em quadrinhos

HQ baiana Rocha Navegável discute a ausência de uma monumento em homenagem aos malês (Foto: Arquivo Pessoal)

Lançada no final de 2020 pela editora baiana RV, a HQ Rocha Navegável, de Fábio Costa e Igor Souza, mistura fatos ocorridos em Salvador com uma viagem histórica e espiritual, onde os malês são peças fundamentais. Na história, o espírito dos revoltosos cobra a existência de um monumento à eles no Campo da Pólvora, local que no passado abrigou uma vala comum, onde os escravizados mortos eram atirados. O local foi cemitério para muitos dos malês mortos na revolta de 1835. “Rocha Navegável tem a relação entre memória e esquecimento como um dos temas centrais. A relevância política de um monumento está em seu poder simbólico e de representatividade histórica. Por isso, os malês continuam revoltados e sua revolta nunca foi tão oportuna e inspiradora”, conta o autor Fábio Costa ao Correio.

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O desejo dos espíritos de Rocha Navegável é luta travada também na vida real em prol dos malês. O Conselho Nacional de Entidades Negras (CONEM) cobra há anos a existência de um monumento no Campo da Pólvora que homenageie os revoltosos. Uma das propostas já levadas ao Governo do Estado é para que o Campo da Pólvora se torne um sítio histórico sobre a revolta, com a instalação de um monumento em homenagem aos líderes do levante.

O momento atual apresenta uma grande safra de podcasts, programas de áudio que podem ser ouvidos pela internet. E a Revolta dos Malês já apareceu na “podosfera”. Vidas Negras é um podcast original do Spotify, que exalta a história de personalidades que fizeram ou fazem a diferença na história do negro. No episódio “O filho que deu à luz a mãe”, o jornalista mineiro Tiago Rogero fala sobre o caminho trilhado por Luiza Mahin, figura de destaque na história do povo negro no Brasil, mas com trajetória controversa quando o assunto é a Revolta dos Malês. Há muito pouco documentado sobre a vida de Luiza. O podcast apresenta muito do que temos atualmente. No episódio, o levante dos negros malês aparece justamente com essa controvérsia. Luiza Mahin teria ou não participado do levante. 

“Foi muito interessante fazê-lo (o episódio). Como já venho pesquisando sobre esse assunto há algum tempo, “conhecia” a história de Luiza Mahin: a ideia de que ela foi uma líder da Revolta dos Malês e que, se tivesse sido bem sucedida a Rebelião, ela teria sido proclamada Rainha da Bahia. Foi especial aprender, durante a apuração, como de fato foi construída essa imagem, e foi essa “viagem” por essa construção que propusemos ao ouvinte no episódio.”, disse Tiago Rogero ao Correio.

Serviço – Escute aqui o episódio “O filho que deu à luz a mãe” de Vidas Negras

No entanto, a versão que indicaria essa possível liderança de Luiza Mahin na revolta não conta com documentação histórica. Uma das poucas pistas é uma carta de Luiz Gama, seu filho, enviada a um amigo. Na carta, há uma citação à Sabinada, uma das principais revoltas provinciais do Brasil império, mas não há citação direta ao levante dos malês. “(…) e mais de uma vez na Bahia foi presa como suspeita de ser envolver em planos de insurreições de escravos que não tiveram efeito (…) Em 1837, depois da Revolução do Doutor Sabino na Bahia, veio ela ao Rio de Janeiro e nunca mais voltou”, escreveu Luiz Gama, o ex-escravo que ajudou a libertar outros negros e se tornou patrono da abolição no Brasil. No episódio Vidas Negras é possível entender mais sobre o assunto. 

Considerado a maior autoridade acadêmica do assunto Revolta dos Malês, o historiador baiano João José dos Reis, professor da Universidade Federal da Bahia, não vê indícios da presença de Luiza Mahin na rebelião. Ele é autor do livro “Rebelião escrava no Brasil”, considerado a obra mais completa sobre a Revolta dos Malês, lançada pela primeira vez em 2003.

Ao longo das mais de 600 páginas, o professor apresenta detalhes com documentos da época sobre a revolta.  O historiador mostra o contexto anterior à revolta malê com as tradições de levantes Bahia, além da organização da revolta, o possível califado na Bahia e o perfil dos principais líderes do movimento. Ahuna, Pacífico Licutan, Luís Sanin, Manoel Calafate, Dandará e outros alufás e malês, e “agitadores”, como os denomina documentos policiais da época, ganham perfis na obra de João José dos Reis que nos ajudam a entender o processo histórico.

Minissérie em cinco episódios

Lançada no final de 2019, a minissérie de ficção Revolta dos Malês, dirigida por Belisario Franca e Jeferson De, pode ser vista, desde o ano passado, na plataforma de streaming do SescTV. Em cinco episódios, a série mistura cinema e teatro para contar a história de Guilhermina, vivida pela atriz Shirley Cruz, uma mulher escravizada que luta para libertar a filha da escravidão. “Éramos um grupo empenhado não somente em contar, mas em conhecer nossa própria história”, disse o cineasta e militante da causa negra no cinema brasileiro, Jeferson De, na época da divulgação do filme ao site do SESC. Veja o trailer da série.

Serviço: Veja a minissérie completa aqui: Revolta dos Malês

“Só quem tem patuá não tem medo da guerra”

Apesar da chuva de contéudos culturas recentes sobre a revolta, a verdade é que a o levante sempre esteve na pauta dos movimentos de luta antirracista, e especialmente através da música. Em 1979, a escola de samba paulista Mocidade Alegre cantou “surge em 25 de janeiro um novo sol de esperança. Vindos de mãe África distante, ostentada em toda fidalguia, eles estavam em Salvador, Bahia.”

Na Bahia, foram os blocos afros os responsáveis por colocar o levante na boca do povo. Gravada nos anos 80, “Revolta” do Olodum cita diversos movimentos por liberdade e independência do Brasil colônia, entre eles, o levante de 1835: “Sou malê, sou búzios sou revolta, arerê!”. O presidente do bloco, João Jorge, destaca que a revolta tem suas contradições pelo fato de ser um levante religioso, mas ressalta a importância dela diante da sequência de revoltas de negros escravizados naquele momento.

O Olodum canta as revolta do povo negro, entre elas, a revota de 1835: “sou búzios, sou revolta, sou malê” (Foto: Arquivo Correio)

“É uma revolta que celebramos como integrante da historiografia do negro no Brasil. Ela fecha um ciclo de levantes iniciado na Revolta dos Búzios em 1798, e passa por diversas outras revoltas do povo negro até  a Revolta dos Malês.  Sabemos do caráter contraditório de ter sido uma revolta religiosa, e que não diz muito sobre o que seria dos outros negros do candomblé ou de outras religiões. Mas é mais um exemplo de luta da população negra que não ficou submissa durante o período da escravidão”, diz o presidente.

João Jorge ressalta que a luta daquele segue muito atual, enquanto lembra que no Olodum, as crianças aprendem desde a escola sobre a importância de levantes como o dos malês. “O Olodum fez parte das comemorações de aniversário de 150 anos da revolta em 1985. Ao lado do Ilê Aiyê e do Malê de Balê sempre exaltados essas revoltas negras mostrando que a negritude baiana marcou a história do Brasil. Na Escola Olodum,  a Revolta dos Malês, assim como a história de Zumbi, da Revolta dos Búzios e da Revolta da Chibata estão presentes em uma cartilha onde nossos alunos aprendem sobre essa busca por igualdade que ainda não alcançamos. É uma luta muito parecida com a luta atual”, completa João Jorge.

O Ilê Aiyê canta e detalha a revolta na música “Levante de Sabres”, citando seus principais líderes, incluídos os alufás, cargo de liderança da religião muçulmana,, Dandará, Salin, Licutan e Ahuna. Além de referências a Manoel Calafate e Luiza Mahin. O Mais Belo dos Belos saúda os revoltosos fazendo referência aos amuletos carregados pelos revoltosos. “Só quem tem patuá não tem medo da guerra, escorrega, levanta e nunca está sozinho”. 

Mas é o bloco afro Malê Debalê quem carrega a revolta de 1835 no nome. O bloco do bairro de Itapuã, um dos mais tradicionais do carnaval de Salvador, tem o nome como homenagem à Revolta dos Malês. O “Debalê” é uma conotação de positividade. Espaço de afirmação da cultura negra, o Malê é um dos responsáveis por manter no cotidiano soteropolitano a nomenclatura de umas das nossas mais importantes revoltas de negros escravizados.

Bloco afro de Itapuã, o Malê Debalê mantém vivo o nome da revolta ocorrida em 1835 (Foto: Divulgação/Malê Dêbale)

Recentemente, os malês voltaram a ser lembrados nas passarelas do Carnaval. Dessa vez, no Rio de Janeiro. O celebrado samba da Mangueira de 2019, ano em que a escola foi campeã, cantou que “chegou a vez de ouvir As Marias, Mahins, Marieles,  malês”.

Mais viva do que nunca, a Revolta dos Malês segue cantada, lembrada e exaltada justamente porque representa o espírito de revolução e busca por liberdade e reparação. Em um momento em que negros de todas as partes dos mundo unem suas vozes por igualdade, a Bahia vê lembrados seus heróis de mesma luta, que através da cultura seguem vivos e em revolução.