Geral Saúde

Tem mesmo como furar a fila da vacinação?

Eu não me exponho ao ridículo de fazer cara de espanto com nenhuma notícia de que “o prefeito se vacinou”, que o outro “nomeou as filhas para que fossem vacinadas” nem com qualquer dessas furações de fila que vem sendo anunciadas. Estaria pasma só se não conhecesse o povo que escondia o carro na esquina pra vir mentir, me pedir cesta básica, disputando comida com quem, de fato, precisava. Estive secretária de ação social de uma pequena cidade do Recôncavo baiano e essa experiência me ensinou muito sobre a nossa alma. Sou grata. E zero romântica, claro. Esse é um lado da questão.

Com raríssimas exceções, vão furar a fila todos e todas que tiverem oportunidade. A não ser que haja plateia e que dizer “pude furar, mas não furei” interesse mais do que a imunização. Uns vão furar porque precisam levar vantagem até na fila do pão. Piores tipos, conhecemos demais. Outros, porque, sabendo que a fila já está furada, não acham sentido em respeitar o que, desde o início, já está desarrumado. Há também quem discorde (e decida desobedecer) das fases de vacinação com argumentos interessantes, inclusive. Já ouvi alguns.

“Por que priorizar idosos de abrigos, se eles não saem de lá? Nessa primeira fase, vacinava só os funcionários e era melhor priorizar os idosos que estão em casa”, foi um argumento que me balançou. Minha amiga, que é delegada, fala, com indignação, dos policiais que estão nas ruas, mas lá no final da fila, junto com a população carcerária. Também me fez pensar. E agora é pra incluir caminhoneiros/as ou professores/as? Argumento dos/as professores/as é voltar às aulas. Mas, que graça, né? Profissionais imunizados e as crianças – que nem aparecem na escala – que se lasquem? Ah, tá. E os/as caminhoneiros/as porque, bom, sei lá.

Nesse protocolo, desenvolvido para esta pandemia, qual é mesmo a lógica? Eu sei que a situação é nova, mas há de haver algum sentido. Porém, ele me escapa. É pra pensar por merecimento (individual e de classe) ou por impacto na coletividade? Os critérios, pra mim, não estão claros. Por merecimento individual, na minha opinião, meu filho seria o primeiro do mundo mundial. Depois, todo mundo junto: eu, meus pais e demais amores. Logo, fica óbvio que não é assim que está certo pensar. Por merecimento de classe, o pessoal da área de saúde atuante na linha de frente. Acho que, disso, ninguém discorda. Ok. Tá. Ah, e os idosos, mas que estejam em qualquer lugar.

Agora, veja por outro lado: se a ideia é impactar na coletividade, o certo não seria começar por quem não tem condições de manter qualquer cuidado profilático básico e circula por pura falta de opção? Tô falando da população em situação de rua, em primeiríssimo lugar. Em seguida, a galera mais vulnerável das favelas. Lá daqueles lugares onde todos os telejornais mostraram, o tempo todo, que, muitas vezes, não se pode lavar as mãos porque não há, sequer, água. Essas duas categorias, pra mim, também por merecimento e retratação. Dentro da lógica do impacto, a galera dos paredões também estaria no topo, junto com todos os frequentadores e promotores de aglomerações. Faz sentido, não? Olha que faz, se você conseguir pensar que nosso maior problema é quem espalha o vírus e favorece todas as mutações.

Vacina não é prêmio por bom comportamento nem heroísmo. Se é, eu nunca soube. É para controle da pandemia. Ou assim dizem os especialistas. Dessa forma, faz sentido pensar que todos e todas têm o mesmíssimo direito de acesso, até a pessoa mais desprezível. Se, por infelicidade (ou má gestão) precisamos escalonar a distribuição, claro que virou “salve-se quem puder” e é inevitável lidarmos com nossas mazelas éticas. As coletivas e individuais. Não me espanto de jeito nenhum.

Desconfiamos dos que nos governam, de seus critérios e atuações. Não somos, como sociedade, nenhum exemplo de civilidade nem temos fama de honestos, pelo contrário. Seríamos agora, que estamos morrendo aos milhares e a vacina é a única chance de voltarmos à vida comum? Vivemos um naufrágio e temos pouquíssimos botes, prioridades estão escritas em algumas paredes da embarcação. Mas deveria haver botes para todos/as, não há fiscalização. É uma emergência. Estamos desesperados/as. Então, eu lhe pergunto: isso que estão fazendo é mesmo “furar” a fila da vacinação?

(Foco no que importa: exigir que tragam mais botes e rápido.)

(E que cheguem logo, também, nas clínicas particulares, que já tira da fila do SUS quem pode e quer pagar.)