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Uma quinta qualquer: sem lavagem, Itapuã tem dia comum e trânsito livre

Todas as pistas tradicionais que entregavam, desde o início da madrugada, que era dia da Lavagem de Itapuã desapareceram nesta quinta-feira (4), que interrompeu tradições com 116 anos de existência. Ese anos os moradores não foram despertados e convidados à rua pelo som do Bando Anunciador às 2h e nem saíram para as ruas, que ficaram vazias e silenciosas em uma noite que costuma ser de festa. Foi a primeira quebra de costume do dia que foi seguida pelo não fechamento do trânsito na região e a ausência dos cortejos, dos milhares de cidadãos e das baianas com seus potes de barro com flores e água de cheiro que tradicionalmente movimentam as ruas do bairro.

Para os moradores, Itapuã estava irreconhecível. Nem parecia que era dia de lavagem. Nesta quinta, as únicas tradições mantidas foram a alvorada com queima de fogos de artifícios e o tradicional café da manhã na casa de Dona Niçu, que é promovido por seus familiares. Ambas precisaram passar por adaptações. A alvorada foi na praia para evitar aglomerações enquanto o café foi reduzido e, ao invés de dar a comida para consumo na frente da casa de Dona Niçu, houve uma entrega de kits para que as pessoas comessem em casa, álcool em gel e máscaras.

Não houve celebrações na Paróquia Nossa Senhora da Conceição (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Tudo estranhamente normal
Sem os costumes desta que é última festa popular antes do carnaval e tem como ato principal a lavagem da escadaria da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, o dia se assemelhou a qualquer outro do ano segundo o pescador Josenildo Lima, 48 anos. “Hoje tá tudo andando como se fosse normal, um dia qualquer. Tem carro nas ruas, trânsito livre. Na lavagem mesmo, já estaria tudo fechado desde madrugada, abrindo espaço para o bando anunciador, para a alvorada e todas as tradições. Esse lugar estaria ocupado com tanta gente que nem com ajuda você conseguiria contar”, disse Lima.

O vigilante Valfredo Costa, 54, concordou com as falas do pescador e explicou as diferenças que eram sensíveis aos olhos e ouvidos em relação a anos anteriores. Ele, que é participante cativo da festa, lamentou ainda mais a não celebração porque a lavagem coincidiu com o seu aniversário. “Eu sempre participo. É muito fácil notar como foi tudo alterado desde o começo do dia. Não teve bando, não ouvimos festa durante a madrugada, nada como sempre era. Nessa hora, nem daria pra eu conversar contigo porque você não iria ouvir, de tanto barulho. Senti falta ainda mais porque é meu aniversário e seria o dia mais alegre”, contou Costa indo para o trabalho, coisa que não costuma fazer nos dias de lavagem porque é liberado do serviço.

Itapuã teve dia comum, sem festa ou aglomeração (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Quem também se decepcionou com a ausência da lavagem foram os comerciantes, que tinham na tradição um momento para faturar muito mais que em dias normais. Roberto Brito, 52, gerente comercial da Regi’s Sucos, lamentou a não existência da festa, mas afirmou que entende o porquê. “É sempre um dia de faturamento muito alto para nós porque o número de pessoas que vêm para cá é muito grande e isso afeta positivamente as vendas. Normalmente, vendemos 50% a mais do que em dias comuns. Agora, estamos tentando vender para não ficar no prejuízo mesmo, mas sei que é uma decisão correta, ter festa seria colocar todos em risco”, afirmou.

Café diferente
A casa de Dona Niçu, onde sua família costuma receber a comunidade depois da lavagem e servir um café da manhã ao som de roda de samba e acompanhado de muita resenha, virou basicamente um ponto de retirada. Isso porque a família entregou kits de café da manhã com bolo de aipim, milho, cuscuz, mingau e outros alimentos e pediu que as pessoas levassem para casa. Leonice Gomes, 62, filha de Niçu, explicou o porquê. “Sabemos que esse ano teríamos restrições para proteger todos, mas não queríamos deixar que a nossa tradição fosse interrompida. Por isso, pensamos em dar o café prontinho em forma de kits para que todos pudessem comer e ninguém ficasse em risco aqui na frente conversando e dando mole pro vírus”, declarou.

Kits de café da manhã foram distribuídos para 250 pessoas (Foto: Reprodução/Acervo Pessoal)

Para Leonice, realizar o café mesmo é mostrar o quanto a sua família respeita o legado de Niçu e mantém a tradição que é parte fundamental de uma das festas mais importantes da cultura soteropolitana. “Essa é uma das grandes festas daqui, está até no calendário da Saltur. E o café é parte fundamental dela, por isso não deixamos de fazer. Aqui a gente recebe gente de Itapuã e de todo lugar, é algo que faz parte da cultura do bairro e que nos alegra, ainda mais em um momento como este”, avaliou.

Além da readaptação da logística, o café também alterou outras características para que tudo fosse seguro. A fila foi organizada com distanciamento social, quem compareceu recebeu álcool em gel e máscaras e o samba de roda não aconteceu. Houve também uma redução considerável na comida. A família não se preparou para servir 800 pessoas como de costume e distribuiu 250 kits para os que compareceram das 5h30 até às 7h. Em outros anos, o café começava às 6h e só se encerrava às 10h, que é quando a comida acabava. 

Movimentação nas ruas
Itapuã funcionou como em um dia comum, com trânsito e uma quantidade normal de pessoas que vão à praia em uma quinta-feira. Bares, restaurantes, pizzarias, temakerias, sorveterias e similares só puderam funcionar no bairro a partir das 11h. A atividade de comércio informal e ambulante também não pôde ocorrer durante todo o dia no bairro. Outra coisa que foi proibida pela prefeitura foi a realização de qualquer atividade com emissão sonora, com uso de qualquer equipamento, incluindo carro de som.

*Com orientação da chefe de reportagem Perla Ribeiro