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Variante resistente? Vacinas combinadas? Entenda as novidades sobre a imunização

Pouco mais de dois meses depois de a primeira pessoa ter sido vacinada contra covid-19 no mundo – uma senhorinha de 90 anos na Inglaterra -, pelo menos 10 imunizantes já foram aprovados ou autorizados para uso emergencial. 

Ainda que existam incertezas quanto à eficácia delas diante do surgimento de mutações no vírus da covid-19, as últimas semanas trouxeram algumas notícias consideradas animadoras para a comunidade científica. 

“São sinais de que a gente está tendo um avanço científico grande e conhecendo cada vez mais a doença. A nossa melhor arma é a vacina, de fato”, diz a imunologista Viviane Boaventura. 

No entanto, ainda que as novidades sejam promissoras, não é o momento de deixar de lado os cuidados com a pandemia. “As pessoas não podem abandonar a melhor estratégia que temos hoje, que é o distanciamento social, o uso de máscaras e a limpeza das mãos. Não é porque temos vacinas e elas estão funcionando bem que devemos descuidar das medidas”, 

Sem vacinas
Esses resultados surgem justamente em meio a uma semana que não foi fácil para o combate ao coronavírus no Brasil. Um dos cenários mais temidos, desde o começo da vacinação, finalmente aconteceu: as doses acabaram na maioria das cidades da Bahia, assim como no resto do país. Em Salvador, a campanha de imunização teve que ser suspensa desde a última terça-feira (16) porque não havia mais estoque suficiente. 

O Ministério da Saúde prometeu mais vacinas ainda neste mês de fevereiro, mas a situação preocupa gestores e autoridades de saúde.

“É uma ilusão achar que estamos vacinando. E o pior é que dá a impressão de que estamos vacinando”, desabafou o secretário estadual da Saúde, Fábio Vilas-Boas, em entrevista durante a live Saúde e Bem Estar, do CORREIO, na última terça. 

Segundo o secretário, na velocidade atual, chamada por ele de ‘conta-gotas’, a população total do estado só seria vacinada em quatro anos. “Mas há esperança de que entrem essas outras vacinas. Tenho informação de que o ministério está fechando com a Johnson e entrando a Sputnik, a gente tem uma aceleração aí”, acredita. 

O governo da Bahia, inclusive, tinha um acordo firmado com o Instituto Gamaleya, em agosto do ano passado, para garantir 50 milhões de doses da Sputnik V. No entanto, após o acordo da farmacêutica União Química com o governo federal, o estado repassou o ‘crédito’ das doses encomendadas ao Ministério da Saúde. 

Aqui, conversamos com pesquisadoras para entender as principais novidades sobre as vacinas contra a covid-19. 

  • Bebê nasce com anticorpos para coronavírus depois de mãe ser vacinada

O primeiro caso de um bebê que nasceu com anticorpos contra a covid-19 depois que a mãe ter sido vacinada foi documentado por pesquisadores da Universidade da Flórida, nos Estados Unidos e divulgado este mês. 

A mãe da criança era uma profissional de saúde da linha de frente do combate à doença e recebeu uma dose da vacina da Moderna semanas antes de dar à luz. Segundo a infectologista Fernanda Grassi, pesquisadora da Fiocruz e da Rede Covida, havia uma expectativa, por parte dos cientistas, de que isso acontecesse. No entanto, a confirmação só veio agora. 

“Os anticorpos maternos passam da mãe pelo filho pela placenta. É o que chamamos de imunização passiva. A outra maneira pela qual acontece é pelo leite materno, por isso o aleitamento é importante nos seis primeiros meses”, explica a infectologista. 

Não se sabe, ainda, quantos desses anticorpos são neutralizantes – ou seja, aqueles capazes de combater o vírus – nem quanto tempo essa proteção deve durar. Possivelmente, deve levar apenas alguns meses, como costuma acontecer com vacinas para outras doenças.

A maioria dos anticorpos do corpo, inclusive, não é neutralizante. No entanto, em vacinas, devido ao próprio objetivo delas, o percentual costuma ser bem maior.  

“O anticorpo que o bebê tem não foi produzido pelo corpo dele. Por isso, não significa que está 100% protegido. Para ele estar protegido, tem que ter um número alto de anticorpos neutralizantes”, completa Fernanda. 

Além disso, a vacina contra covid-19 ainda não é amplamente indicada a todas as gestantes. É preciso avaliar cada caso.

  • Combinação de doses de vacinas diferentes é considerada promissora

Duas doses de vacinas diferentes contra a covid-19 que poderiam ampliar a resposta imune. Essa foi a conclusão de um estudo preliminar de pesquisadores da Universidade de Oxford, na Inglaterra, também divulgado este mês. 

A ideia dos pesquisadores é combinar uma vacina de RNA mensageiro – no caso, da Pfizer – com uma de adenovírus – a de Oxford/AstraZeneca. O resultado inicial foi feito apenas em camudongos, mas animou os pesquisadores. Os testes clínicos em humanos já começaram, com as mesmas vacinas usadas nos animais. 

“É uma estratégia bem promissora. Significaria que, se você combina vacinas diferentes, aumentaria nossa capacidade de responder”, diz a imunologista Viviane Boaventura, membro do Departamento de Imunologia Clínica da Sociedade Brasileira de Imunologia e professora de Medicina da Ufba. 

Segundo ela, há dois fatores importantes nessa estratégia: a possibilidade de fazer frente às novas variantes do coronavírus e flexibilizar a administração das doses, facilitando a logística das campanhas de imunização. 

“A gente está vendo aqui a falta de vacinas. Se você souber que, combinando vacinas, não diminui a proteção e talvez até aumente, poderíamos não ficar sem o reforço se tivesse uma carência de suplementos para determinada vacina”, explica. 

Os testes com humanos envolvem 820 voluntários. Eles foram divididos em dois grupos: um com quatro semanas de diferença entre as doses e outro com 12 semanas. Além dessas duas vacinas, a Sputnik V também será testada no futuro. Assim como a de Oxford/AstraZeneca, ela usa um adenovírus em sua plataforma. 

  • Israel confirma eficácia da vacina da Pfizer de 95% no ‘mundo real’

A eficácia de 95% da vacina da Pfizer, a primeira aprovada contra covid-19, tem sido celebrada pela comunidade científica desde o final de 2020. No entanto, é comum que, fora de ensaios clínicos – ou seja, no ‘mundo real’ – um imunizante não alcance o mesmo percentual da fase de testes. 

Isso acontece porque, na prática, há situações que podem interferir nos resultados – e isso vai desde a aderência da população até a logística para que ela seja distribuída a todos. Assim, quando Israel reforçou os resultados de 95% em um estudo com mais de 600 mil pessoas no país, esta semana, o anúncio também foi considerado positivo. 

“É uma notícia muito boa. Há uma certa cautela ainda nessa avaliação, porque tem que esperar um pouco, mas os primeiros resultados são muito bons”, diz a imunologista Viviane Boaventura, membro do Departamento de Imunologia Clínica da Sociedade Brasileira de Imunologia e professora de Medicina da Ufba. 

Além disso, uma pesquisa feita com profissionais de saúde em Israel e publicada na revista científica The Lancet mostrou que a vacina diminuiu em 85% os casos sintomáticos no intervalo de duas a quatro semanas após a aplicação da primeira dose.

No caso da vacina da Pfizer, os números são animadores também pelas necessidades do próprio imunizante, que precisa ser guardado em temperaturas muito baixas. O caso de Israel tem servido de exemplo para o mundo por ser o país com a vacinação mais avançada. 

Lá, ao menos 47% da população já recebeu ao menos uma dose do imunizante. Os resultados já vinham sendo percebidos ao longo das últimas semanas. No fim de janeiro, o país já apontava queda de até 60% nas internações por coronavírus. 

Mesmo assim, Israel chama atenção por não ter deixado de adotar outros procedimentos importantes para o combate à pandemia, como a restrição de mobilidade da população. 

“Não é uma bala de prata. A gente ter em mente que demora para funcionar. Você tem que esperar que uma boa parte da população esteja vacinada e com duas doses para ter essa queda na quantidade de casos e foi o que aconteceu”, pondera Viviane, também pesquisadora da Fiocruz.

Variantes assustam, mas Coronavac pode ter vantagem

As notícias sobre as novas variantes do coronavírus têm trazido incertezas para autoridades de saúde e cientistas do mundo todo. No entanto, a plataforma com a qual é feita a Coronavac pode ser uma vantagem diante desse cenário. 

Assim como as vacinas da Sinopharm e da Bharat Biotech, a Coronavac usa um vírus inteiro inativado em sua composição. Outras vacinas atuam na chamada proteína S – spike – do coronavírus, que o liga às células. 

É uma vantagem em potencial porque significaria que o sistema de defesa do corpo criaria respostas a diversas partes do vírus, não apenas à proteína S. 

“A Coronavac é feita com a plataforma mais conhecida de vacinas, a que se tem maior experiência. As demais vacinas usam apenas a proteína S, que é muito específica. Só que as variantes do coronavírus podem acontecer através de outras proteínas”, diz a infectologista Raquel Viana, professora de Medicina da UniFTC. 

O Instituto Butantan já informou que a Coronavac teve bons resultados em testes contra as variantes do Reino Unido e da África do Sul. Agora, a vacina está sendo testada contra a variante que surgiu em Manaus. 

Só para dar uma ideia, na última quinta-feira (18), um estudo identificou que a vacina da Pfizer perderia até dois terços de sua eficácia para tratar a variante que surgiu na África do Sul. No início do mês, o país chegou a suspender a vacinação prevista com a vacina da AstraZeneca porque outra pesquisa também indicou resultados piores. 

Para completar, também na quinta-feira, a Itália informou que um profissional de saúde do país foi infectado com a variante brasileira depois de ter recebido a vacina da Pfizer. 

No entanto, a infectologista acredita que ainda é cedo para afirmar que elas não são tão eficazes diante das variantes – ou mesmo de tomar medidas como suspender a vacinação. 

“Ainda não dá para saber, do mesmo jeito que a gente só vai poder responder o quão eficaz uma vacina é na vida real quando tivermos um monitoramento a médio prazo das pessoas vacinadas”, pondera Raquel. 

  • Vacina de Oxford começa a ser testada em crianças e adolescentes 

Ainda de fora das campanhas de vacinação no mundo todo, crianças e adolescentes deram o primeiro passo para serem incluídas esta semana. Na terça-feira (16), elas começaram a receber o imunizante esta semana, em um estudo da vacina de Oxford/AstraZeneca. Por enquanto, é um teste com 300 voluntários, com idades entre 6 e 17 anos. 

A ideia é identificar se a resposta imunológica também vai ser eficaz com essa faixa etária, mas, desde já, a novidade tem sido encarada como um avanço na comunidade científica. 

Isso porque, como explica a infectologista Raquel Viana, professora de Medicina da UniFTC, testes em crianças só são realizados quando um medicamento ou vacina é considerado seguro em adultos.

“É uma questão ética. Fazer um estudo em crianças não depende só da autorização da pessoa, porque é um organismo em desenvolvimento. De fato, se tem um pouco mais de cautela”, explica. 

Além disso, no caso da covid-19, a maioria dos casos graves não acontece com essa faixa etária. “Então, se formos pensar em grupos prioritários para receber a vacina, os testes em adultos são mais indicados nesse momento, porque é um grupo que, a princípio, precisa ser imunizado de forma mais urgente”, completa. 

O estudo vai comparar os resultados de 240 voluntários que vão receber a vacina contra a covid-19 com o de crianças e adolescentes que devem receber uma imunização contra meningite, como forma de controle dos pesquisadores. Essa é a fase 2 da pesquisa. Depois que ela foi concluída, os cientistas darão início a uma nova fase, com uma quantidade maior de crianças e adolescentes voluntários.

  • Ao menos 20 novas candidatas estão em fase avançada de testes

Até o momento, o Brasil só tem duas vacinas, mas, em todo o mundo, 10 já foram autorizadas e/ou aprovadas em diferentes países. Só que esse número deve ficar ainda maior nos próximos meses. 

Existem ao menos 20 outras vacinas atualmente na fase 3 – a etapa que garante a passagem para a aprovação ou para a autorização de uso emergencial. Chegar à fase 3, quando se observa a eficácia em larga escala, significa que o imunizante teve sucesso em testes de segurança nas duas etapas anteriores. 

Para a infectologista Fernanda Grassi, pesquisadora da Fiocruz e da Rede Covida, essa é uma das melhores notícias da pandemia, nos últimos tempos. 

“Isso é uma coisa que nunca aconteceu antes: um número tão grande de vacinas sendo estudadas ao mesmo tempo. É uma perspectiva muito boa”, diz. 

Entre as candidatas atualmente na fase 3, há pesquisas de países com Índia, Alemanha, Estados Unidos, China e Canadá. Assim como as já aprovadas são baseadas em diferentes tecnologias, as outras candidatas usam diversas plataformas para tentar garantir a resposta imunológica do corpo. 

“É uma boa perspectiva porque precisamos vacinar muito rápido para contar a pandemia. O mundo todo precisa vacinar ao mesmo tempo. Não adianta a Europa e os Estados Unidos vacinarem e o resto não”, analisa Fernanda. 

O ideal, para ela, seria que a vacinação fosse concluída o mais cedo possível, ainda este ano. “O Brasil tem capacidade instalada para fazer isso. Conseguimos vacinar 10 milhões de pessoas no Brasil. Bastaria ter a vacina”, enfatiza.