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Vítima de donos de pousadas de luxo na Praia dos Garcez chegou a cogitar ir embora de Salvador

Os empresários Shirley Figueredo e Leandro Troesch, presos na sexta (19)

As primeiras noites após o cativeiro não foram as mesmas de antes. As lembranças vinham à tona, como um flash, a todo momento e varavam a madrugada. “Foram três dias sem dormir. Pensamos até em ir embora daqui”, disse ao CORREIO o marido da vítima dos empresários Leandro Silva Troesch e Shirley da Silva Figueredo. O casal bem-sucedido é dono de duas badaladas pousadas na famosa Praia dos Garcez, na cidade de Jaguaripe, no Recôncavo, e foi preso na última sexta-feira (19) na região, após ter sido sentenciado pelos crimes de roubo e extorsão mediante sequestro contra uma mulher em Salvador há quase 20 anos.

Procurado pelo CORREIO, o marido da vítima se mostrou ainda bastante desconfortável para falar sobre o assunto. A entrevista foi por telefone, a pedido dele. “Foi um momento muito intenso, muito intenso mesmo. Para enfrentar toda essa situação, a gente precisou contar com a ajuda de um profissional. Fizemos terapia por quase dois anos para nos reerguer”, disse ele, na manhã dessa quarta-feira (24).   

Leandro e Shirley foram presos por policiais civis dentro de uma de suas propriedades, a Pousada Paraíso Perdido – o outro imóvel é a Pousada Aconchego das Águas. O marido da vítima ficou sabendo da prisão através da reportagem. Ele disse que não sabia que o casal levava uma vida normal, que eram empresários e viviam no luxo.

“Desde quando aquele pesadelo acabou, decidimos não mais tocar no assunto, não mais saber de nada. Nem sabia que são empresários”, disse. 

O Tribunal de Justiça da Bahia (TJ) em 2010 condenou, em segunda instância, Leandro e Shirley a 14 e 9 anos de prisão, respectivamente, em regime fechado. No entanto, apesar de a Polícia Civil informar ao CORREIO que somente na última sexta localizou o casal, os empresários são figuras públicas, e as páginas do Instagram das duas pousadas somam quase 90 mil seguidores, com fotos deles sozinhos ou acompanhados de clientes, artistas e jornalistas.

O marido da vítima comentou a demora da prisão. “A atual situação do país aponta para o questionamento contra a Justiça, de um modo geral. Isso é uma gota no oceano. A justiça não é justa. A sociedade se sente desassistida. Perdemos a capacidade de confiar”, desabafou.  

O Ministério Público do Estado (MP) disse que, no último dia 26 de janeiro, a Justiça determinou a prisão dos empresários ao negar os recursos ingressados pelos advogados de defesa, solicitando a revogação de prisão preventiva decretada contra eles. “O relator do processo, o juiz substituto de 2º Grau, Humberto Nogueira, pontuou que havia mandados de prisão em aberto, expedidos desde agosto de 2018, e, portanto, o fato de eles ainda estarem soltos configurava não aplicação da lei penal”, diz nota do MPE.

Advogado dos empresários, Abdon Abadde afirmou que somente Shirley já está no Complexo Penitenciário da Mata Escura, ao contrário do que disse a Polícia Civil nesta terça – a informação dada foi a de que os dois já estavam no complexo. “Léo (Leandro) deve ir amanhã (quinta-feira)”, disse Abadde, que já entrou com pedido de soltura do casal. 

O CORREIO perguntou se Leandro e Shirley confessaram o envolvimento nos crimes, quais as participações deles e qual a relação deles com os outros três réus do processo. “Não vou me ater no momento ao processo, que ainda está tramitando. Prefiro me resguardar para um momento oportuno”, declarou o advogado. 

Detalhes do crime
O processo que apura o caso tem como réus cinco pessoas, entre elas o casal. No dia em que a vítima foi abordada, estavam três dos acusados: Joel Costa Duarte, Carlos Alberto de Jesus de Andrade e Leandro, dono de um Volkswagen Gol usado no crime. O marido da vítima deu mais detalhes ao CORREIO do que aconteceu naquele 10 de maio de 2001. A pedido dele, alguns detalhes, a exemplo de nomes de alguns locais, não serão revelados.

Era por volta das 18h30, quando a mulher dele chegava em casa. “Ela estava parada no carro esperando o nosso filho de três anos descer, porque iam dali para outro lugar, quando um carro com três homens parou bem ao lado dela e dele saíram dois homens que a mandaram para o banco de trás e assumiram a direção do carro. Ela permaneceu deitada atrás. Eles saíram com ela e outro carro com o comparsa vinha seguindo ”, contou ele. 

De acordo com o processo, Leandro é o que diriga o Gol que segue o primeiro carro, ocupados pelos comparsas e a vítima.  Após estacionarem os veículos em local não determinado, os acusados exigiram da vítima seus cartões bancários e respectivas senhas, tendo Leandro e Joel efetuado saques em, pelo menos, duas contas de titularidade da vítima, enquanto Carlos a mantinha sob controle. Contudo, ao verificarem o saldo de uma das contas, o trio resolveu manter a vítima em cativeiro e exigir do seu marido um resgate para a sua liberdade. “Quando viram o saldo (R$ 35 mil), eles cresceram o olho e o que era para ser um sequestro relâmpago, o que na época era muito comum, virou um sequestro com pedido de resgate”, contou o marido da vítima.  

De acordo com os autos, diante da recusa de Carlos em permanecer com a vítima, Joel manteve contato com Júlio da Silva Santos, que, ao chegar, foi conduzido por Leandro ao Motel Le Point, na Avenida Luiz Viana Filho, nas proximidades da 1ª Rótula do Aeroporto, onde foi deixado, na companhia da vítima, por volta da 1 hora da manhã do dia seguinte, 11 de maio de 2001.

Turistas
Enquanto ligavam para o marido, exigindo a quantia de R$ 35 mil, o grupo resolveu alugar um imóvel no Loteamento Marisol, Quadra 12, Lote 07, na Praia de Ipitanga, em Lauro de Freitas, para servir como novo cativeiro. “Lembro na ocasião que a dona da casa disse que os dois [o casal] se passaram por turistas e então alugaram o local.”

Cumprindo a exigência dos sequestradores, o marido da vítima, por volta das 21h30, deixou a quantia estipulada em determinado ponto da Via Parafuso, que liga Salvador a Camaçari, momento em que Leandro, Shirley, Joel e Carlos pegam o montante e retornam em seguida ao imóvel utilizado como cativeiro. Após efetuarem a divisão entre os integrantes do grupo, Joel e Julio libertaram a vítima, deixando-a nas proximidades de um posto de combustíveis no bairro de São Cristóvão, já em Salvador. “Ela estava fisicamente bem, sem nenhuma lesão, mas estava muito abalada, nervosa, naquele estágio de questionamento: ‘por que justo nós?’, ‘por que a gente?’”, lembrou. 

Policiais civis que já acompanhavam o desenrolar do caso conseguiram prender Leandro, Shirley e Carlos na madrugada do dia 12 de maio, em frente ao antigo Shopping Aeroclube Plaza, na Boca do Rio. “Eles (bandidos) disseram para anão acionar a polícia, mas, diante de tudo, mesmo contrariando alguns parentes, eu não enxergava outra opção no momento para lidar com a situação a não ser a polícia”, contou o marido da vítima.

Com os presos, os agentes encontraram R$ 14.870,40, um talão de cheques e cartões subtraídos da vítima, além de um revólver calibre 32.  Júlio e Joel foram presos posteriormente.